terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Outros tempos
Há um ano atrás eu estava aflita. Não queria mais a mesma comodidade dos anos anteriores. Desejava o ardor de lutar por algo, a vontade de esquecer de tudo e ao mesmo tempo não perder o foco. Eu ria da minha desgraça e fazia esforço pra limpar os olhos quando chorava no banheiro. Ansiava por liberdade e formava ideologias. Hoje talvez até riria um pouco da minha ousadia ao defender nos debates as soluções para a sociedade que eu ainda acho doente. Já era viciada em chocolate e talvez eu tenha comido umas três barras entre os intervalos de aulas. Não imaginava como seria tudo dali em diante, mas queria tanto viver que algo dentro de mim praticava me empurrava enquanto andava e basicamente me obrigava a acreditar que amanhã tudo seria melhor. Hoje odeio tanto esse otimismo, mas parece que sou obrigada a ficar repetindo-o para os outros e é estranho abraçar alguém enquanto chora quando você também está sofrendo. Antes eu ainda era cheia de sonhos e perspectivas menos realistas do que as de hoje, mas talvez eu fosse a Kênia que vai se perdendo aos poucos e aprendendo que o mundo está cada vez mais do jeito que eu digo e menos como queria que fosse. Meus deletérios se agravaram, mas a letargia continua a mesma. Ainda procuro motivos para viver, tentando sonhar mais uma vez e agarrar tudo em que creio com as duas mãos. Minhas ilusões eram mais saudáveis e minhas incertezas eram quase certas e menos trágicas. Talvez tenha restado um pouco daquela jovem crítica e um tanto revolucionária na poeira da minha existência. Lembrar de tudo aquilo parece mais surreal agora que acredito menos em que um dia tenha existido dentro de mim uma garota que se esforçava muito pra ser feliz e que independentemente de conseguir ou não, acabava rindo no final das contas. Acho que sinto falta dela.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Declaração
Hoje só uma coisa a declarar: lágrimas.
Mas eu sei que vai passar. E depois eu vou poder falar melhor sobre isso.
Me desculpem.
Mas eu sei que vai passar. E depois eu vou poder falar melhor sobre isso.
Me desculpem.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Indiferença
Ela levantou mais cansada do que havia adormecido, não se preocupou em desligar o despertador do celular, permaneceu imóvel enquanto ouvia as frases da música que tanto mexia com seu íntimo. Esperou pelas lágrimas que deveriam vir, porque sabia que o cheiro que sentia no travesseiro era do perfume dele, que impregnou tudo naquela casa como um vírus, e a cada dia percebia que tudo ali estava doente. Porque tudo ao redor fazia parte dela e apesar de ter a mesma aparência e as mesmas cores, ela sabia que tudo estava se decompondo. Como ela mesma. Em cima daquela cama, esperando por ele, sabendo que não viria. Porque ainda podia ver a imagem dele na soleira da porta, andando sem olhar para trás e ainda podia ouvir seus gritos de desespero, que ecoavam como trovoadas e num dia normal a fariam ter dor de cabeça. Ela piscou mais uma vez e sentiu que as lágrimas não queriam cair. Seus olhos estavam secos demais. E por acidente descobriu que seu coração estava com batimentos compassados, e a dor se esvaíra. Ela continuava imóvel, porque a consciência de tudo preenchia cada espaço vazio. Percebeu que nunca mais seria a mesma, porque ele havia partido, mas de algum modo, a levara junto com ele. Sem se dar conta do que fazia, conseguiu se levantar novamente e ao erguer os olhos para a janela viu o dia lindo que estava lá fora. E respirar fundo já não foi tão doloroso, mesmo com o cheiro dele ainda presente, porque a presença dele sempre estaria ali, grudada em sua carne como uma tatuagem, e querendo ou não, ela teria que se habituar a isso. Mesmo tendo que sofrer novamente. Mas sabia que não iria sofrer, porque seu coração não estava mais no mesmo lugar e o que ela sentia agora era só indiferença.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Verme
Estou cansada desse nosso parasitismo. Nossa relação pútrida e abominável já me fez sofrer demais. Foi bonita enquanto meu masoquismo a permitiu existir. Saia de mim agora, seu verme! Não ouse implantar mais uma gota desse seu veneno letal no meu organismo, muito menos tentar me convencer de que estou errada com essa sua estúpida retórica. Vá embora com esse seu narcisismo exacerbado e nunca mais, nunca mais olhe nos meus olhos novamente. Eu vou assassinar essa cria imunda que você plantou em mim. Esse amor odioso que me consome. Que mata minhas esperanças e faz meu coração parar de bater aos poucos. Essa é a última vez que morrerei por ti. Juro, sobre esta terra amaldiçoada, que nunca mais sangrarei por você ou qualquer outro. Me deixe em paz agora e nem pense em olhar para trás. Saí daquele abismo escuro e minha letargia se foi junto com a nostálgica certeza de que havia te perdido. Perdi ganhando. Vou abrir espaço no meu peito confuso e deixar o caminho livre para aquele que realmente deseja entrar. E, ai dele se fizer as mesmas coisas que você fez. Esse meu riso de escárnio estava preso há muito tempo. E agora que ele saiu não sei porque acaba de se transformar em soluços...
obs: Me desculpem por isso. Outro dia explico esse meu estado de espírito.
obs: Me desculpem por isso. Outro dia explico esse meu estado de espírito.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Abismo
Me perdi em meio as nossas controvérsias. Sua falta de ação e timidez me preencheram de tal modo que a incerteza falou mais alto. Lamento não poder voltar atrás para redesenhar nossa vida repleta de sentimentalismo e dúvidas. Sei que se você pudesse faria o mesmo, está escrito no seu olhar toda vez que um silêncio nos preenche depois de uma piada com palavras que se fossem ditas sem o humor, seriam uma bela declaração de amor. Talvez se não fôssemos tão medrosos e nos encarássemos ao invés de olhar para o chão como quem espera uma resposta que nunca virá, estaríamos mais felizes agora com nossos lábios unidos e seu calor penetrando em minha pele mais intenso do que quando nossas mãos estão coladas umas as outras. Como se não bastasse as barreiras invisíveis existentes entre nós, há ainda ela que sonha com você e o ama tão loucamente como eu. Ou mais. Seria bem mais fácil se não a víssemos morrer toda vez que ela me vê com você ou se eu não morresse toda vez que os olhos dela brilham e ela espera, com o coração acelerado, uma declaração sua. E nós duas vamos ressuscitando e mesmo sem querer, sobrevivendo. E você vai partindo, mesmo sem perceber, dois corações que já não são tão puros, corrompidos pelo calculismo e pela frieza que faz parte do mundo em que vivemos. A medida que o tempo vai passando, vamos ficando mais gastos pela poeira tóxica que sai de nossas almas e pela velhice precoce, nosso abismo vai se alargando devagar e vamos percebendo que a distância entre nós já é enorme. Tentei ultrapassá-la, usando minha paixão ardente e a pouca coragem que me resta, só que, mais uma vez, acho que morri tentando.
E dessa vez, eu não sobrevivi.
E dessa vez, eu não sobrevivi.
(...)
“Sempre senti, a vida inteira, que as páginas que ia deixando à minha passagem eram parte de mim. As pessoas normais trazem filhos ao mundo, nós romancistas, trazemos livros. Estamos condenados a deixar a vida neles, embora quase nunca nos agradeçam por isso. Estamos condenados a morrer em suas páginas e, às vezes, a permitir que elas acabem nos tirando a vida.”
O jogo do Anjo - Carlos Ruiz Záfon
O jogo do Anjo - Carlos Ruiz Záfon
sábado, 10 de outubro de 2009
Idiota
Flutuei por alguns dias. Vivi intensamente alguns instantes e morri muitas vezes, em outros. Sorri e chorei. Mas agora, olhando as minhas costas como quem olha para a eternidade, tudo parece tão distante. Talvez eu não devesse ter acreditado tanto que tudo é possível e que a felicidade não é uma mentira. Hoje, quando olho para você com ela, percebo o quanto fui idiota. Não sei se me iludi por me perder no seu olhar, ficar com as pernas bambas quando você me sorria ou por ter acreditado, enquanto conversávamos, que eu poderia ser correspondida enquanto ouvia a melodia grave e sincera que é a sua voz. Chorei enquanto voltava para casa e deixei que percebessem o quanto me doía ver você escapulindo das minhas mãos. Me machuquei mais dessa vez, porque acreditei que desfaleceria em seus braços enquanto o trovejar silencioso de seu coração me fizesse dormir. Você me fez perder o controle e minha ferida aberta me faz, enquanto desabafo com palavras que nunca serão o suficiente para descrever o que você representa para mim, chorar. Choro por ter sido idiota, por me deixar abater por algo que veio tão rápido e avassalador, que só poderia ser uma mentira. Mas não foi. E meu coração agora está tão despedaçado, que às vezes me pergunto porque continua batendo.
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