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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Alice

Alice tinha perdido a fé. Depois de ficar olhando por horas o mesmo branco intocável ela percebeu que nada existia entre ela e a mistura daquelas cores todas que resultavam no tudo. Esse tudo a cobria e envolvia numa mar de nada.
Ela tinha dez anos.
Não existe porque não existe e ponto final. É simples assim mesmo que difícil de entender.
É triste perder a fé com dez anos. Se tornar tão sem nada que não vê fundo. Tentar se acabar três vezes e desistir antes de tentar em todas. Ela sabe que de todas as coisas que existem no mundo só pode acreditar em si mesma mesmo que isso não signifique muito.
Olha, a gente precisa conversar sobre as paisagens que você vê e é preciso desenhar um deserto um muro e aquele monte de areia sem nada, nada. Só você e a areia e aquele maldito muro que dói pra atravessar.
É isso que passa na cabeça dela durante casamentos aniversários sobremesas domingos a vida.
Eu acho que de todas essas coisas a menos chata é a curiosidade de ver o que tem atrás do muro. Esses dias eu pensei que talvez nem eu exista, a vida é essa merda em que a gente se encontra sem ter vontade de entrar, mas que é obrigado a sentir o cheiro.
- Olha, vai pra casa e descansa um pouco. - Disse a doutora Andressa - A vida tem desses altos e baixos. Amanhã o céu abre e você percebe que é muito interessante ficar nesse lado do muro.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Diana

Ficou um tempão parada comendo um pão doce na porta antes de entrar. Não estou nervosa, não estou nervosa. Limpou a mão na calça. Depois entrou. Eu queria marcar um... Qual seu nome? Diana. Nome completo, por favor. Diana exitou. Respirou fundo. A moça que tinha os olhos claros e era muito bonita segurou as mãos de Diana, olha meu amor, meu nome é Alice. Mas não é de verdade, você não precisa falar seu nome de verdade aqui. Diana achou aquilo ótimo. Disse que seu nome era Brigitte Bardot e sentou na sala de espera. Não roeu as unhas como a outra garota da fila, ficou olhando para o chão o tempo todo. Ah, queria tanto poder passar o resto da vida olhando o chão, sem saber que olhava pra dentro dela mesma. Ela sabia que precisava se livrar daquilo, era feminista, menor de idade e tinha muitos sonhos. A única merda naquilo tudo era todo mundo achar que ela era forte, que podia encarar tudo de peito aberto. Não se achava forte pra encarar muitas coisas, mas encarou. Quando a mãe se matou ela cuidou de tudo, quando o pai entrou em depressão ela ajudou em tudo. Mas sua felicidade ia minando aos poucos e às vezes se achava oca. Mas de uma coisa ela tinha certeza: aquilo não era capaz de encarar. Além do que, não queria o mesmo fim das outras. Sim, a felicidade é possível e ela existe na minha independência. Posso me arrepender, mas não vou arriscar tudo pra dar continuidade a essa coisa. Sim, Diana era forte. Respirou fundo e olhou pra porta. E o namorado, cadê? Por mais que não confessasse, uma parte dela queria ser romântica e queria atenção. Mas isso não existe aqui, existe? Eu vou pra casa estudar e ter certeza de garantir um futuro pra mim. Nunca dá certo esperar as pessoas, elas nunca têm boa vontade suficiente. Nunca. E elas te decepcionam. Tentou não pensar na mãe. Meu namorado não precisa saber que eu vim, ninguém precisa. Brigitte Bardot, o médico chamou. Ninguém riu, todo mundo estava muito preocupado com os próprios problemas. Assim que entrou no consultório, o médico pediu pra que ela se sentasse, olhou nos olhos da menina. Estão ficando cada vez mais jovens... Mas não queria saber da história de ninguém. A responsabilidade do que acontecer aqui é sua, se você sangrar até a morte, não vou poder fazer nada. Cadê seu acompanhante? Não é recomendável... Diana cortou a conversa, olha, médico (não chamava médico de doutor, doutor é quem faz doutorado, médico é médico), eu vou pagar em dinheiro. Não se preocupe com isso, uma amiga vem me buscar depois. Mentira, tudo mentira. Sim, Diana pagaria à vista, mas não, nenhuma amiga iria buscá-la. Não tinha amigas que apoiassem aquele tipo de coisa... O médico só anotou algumas coisas no papel e depois a encaminhou pra marcar tudo. A balconista, Alice, foi muito amável. Diana saiu aliviada. Depois de amanhã estaria tudo certo, estaria livre daquilo. Mas no dia combinado da hora combinada, em cima da mesa Diana sangrou até a morte. Ah, sim, tinha tantos sonhos... Mas são os imprevistos da vida. Acontece.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Bete

Bete não podia ter filhos. Depois do câncer ela não pôde mais ter os tão sonhados rostinhos gordinhos ao seu alcance. Era jovem, bonita, rica, respeitada. Mas não podia ter filhos. Bete a noite levantava e andava pela casa, perdida, queria morrer. O marido ali, sempre presente, sempre, como um cão fiel. Aquele amor irritava às vezes. Deixava de cuidar da filha Diana rebelde para ficar com a esposa. Talvez fosse por isso que a adolescente fosse tão mal educada! Se tivesse um filho, ela faria diferente. Depois da depressão, Bete descobriu que trair o marido aliviava a sua dor. Tinha felicidade quando via aqueles rostos cheios de desejo enquanto ela subia e descia, subia e descia. Largou o emprego. Passava as tardes na academia tentando formar aquele corpo tão cobiçado. Às vezes calculava quanto tempo demoraria pra morrer se seu corpo caísse da sacada. Depois de dormir com homens na cama do seu marido ela sentia um pouco de nojo de si mesma, sentia inveja das mulheres traídas em casa com as crianças. Por que ela, justo ela, não pôde ser uma mulher como as outras? Nascer, ser oprimida, sofrer com o machismo, casar, ter filhos, ser infeliz. Por que? Deixou de ter filhos pra prosseguir na carreira profissional, pra ter sucesso. E agora tinha o quê?
Às vezes ela se imaginava contando pro marido toda a verdade. Ele iria bater no seu rosto, te dar uma surra, deixar toda marcada. Ou talvez matasse a ela e ao amante. Talvez.
Tinha uma boa alimentação e cuidava bem do corpo como qualquer mulher muito vaidosa. Mas corria de hospitais. Quando a gripe forte veio ela não teve como escapar, exames aqui, exames ali. E de repente o resultado. Outro câncer, no seio esquerdo. Não chorou, não fez alarde, ficou parada olhando pra calça do médico. Foi pra casa pensativa. Entrou pela porta da cozinha e esperou o marido chegar, não tomou água e nem tirou a bolsa dos ombros. Quando ouviu os passos e sentiu a fechadura na porta se preparou, antes que o marido colocasse os dois pés dentro de casa ela contou tudo. Já dormi com seu irmão, com o vizinho do lado, com seu chefe, com o jardineiro, com o mecânico. Já te traí tanto que não lembro. O marido continuou parado. De repente suspirou e começou a caminhar firme. Amor, vamos pedir uma pizza? Ao ouvir a voz do marido assim, tão morna, Bete teve vontade de matá-lo. Não teve filhos, não teve amor, não teria mais seio. Será que ainda poderia ser chamada de mulher?
Vamos, o número está na geladeira, disse enquanto se levantava.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Lucia

Lucia descobriu, enquanto seu marido conversava com a vizinha, que os dois tinham um caso. Não precisava de provas. O olhar da vizinha Bete magrela dizia tudo. Ela já teve o corpo bonito assim, mas depois dos filhos, da depressão, da idade via os peitos murcharem e o corpo mudar, não parecia seu corpo. O marido mudou também. Aquele cabelo grisalho e as novas roupas chiques que ele conseguiu depois do novo emprego. As mãos de Lucia sujas, descascar batatas deixava a mão meio grossa... Ainda tinha a sala pra limpar, o banheiro pra lavar. E o marido de Lucia que a acusava de ser mole. Ah, Lucia, você, justo você!, uma mulher com tanto talento! Cair nessa vidinha. Lavou as mãos e continuou observando os dois pela janela. Não, talvez não fosse um caso, talvez ainda estivessem pensando nisso, pensando em traí-la. Como ele pode? Depois de ela ter perdido a sua juventude com um homem como ele! Depois de ela ter dado a luz a seus filhos! Uma mulher dez anos mais jovem... Quanto constrangimento...
Limpou as mãos roliças na toalha e sentiu uma súbita falta de ar. A perna parecia muito frouxa, a vista parecia muito embaçada. Lucia pensou que poderia ser ciúme, poderia ser a raiva do marido traidor, poderia ser o desejo de vingança. Mas devia ser só mais uma dessas crises da idade. Ah, Lucia, a idade é tão severa. Sentou-se e ficou pensativa. A sala, o banheiro, o arroz queimando. Levantar e ir embora, abandonar o marido, as crianças, aquela vida de merda de dona de casa mal amada e mal comida. Chorou sozinha, não pela traição, não pelo medo das doenças, mas por pena dela mesma... Quando foi que deixou de amar a si mesma? Foi quando fingiu não perceber as traições? Foi quando disse "sim"? Foi depois do primeiro filho? Ficar triste, chorar, rebater, brigar, quebrar a casa, matar o marido, fazer o almoço, emagrecer, cuidar dos filhos, viver sua vida, ver a roupa do balé, costura meias, ser amável, ser honesta...
Foi pra sala e pegou a vassoura. Mas aquele chão não era o de sempre, parecia mais perto... Saiu pela porta da frente e pensou em tudo, pensou em correr. Mas não teve forças. Caiu na grama e deixou as formigas subirem em seu corpo. Mas aí lembrou:
Nossa! O arroz!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

#1

Primeiro olhou pra sala. Tudo no lugar, como sempre. Depois olhou o relógio. Gostava de controlar as horas. Tenho exatamente 30 minutos antes da novela. Foi fazer café. O cheiro inundando a cozinha deu mais prazer do que a bebida em si. O vapor insinuante que subia da xícara a lembrou o filho da manicure.Os mesmos movimentos sedutores. Tão bonito... Tomou um gole para esquecer os pensamentos libidinosos que começavam a escalar seu corpo. O café queimou a língua e ela não fez nenhuma exclamação. Olhou o reflexo do seu corpo no armário e caminhou novamente para a sala. Tinha perdido o horário da novela. Nunca perdera o horário da novela. Ligou a televisão justo no momento em que o mocinho falava com aquele sotaque nordestino que a fazia abrir as pernas. Igual o filho da manicure. Sérgio, era esse o nome dele. Fechou os olhos e imaginou o filho da manicure dizendo que a defenderia, amaria, penetraria... Tomou mais um gole de café e cruzou as pernas. O marido abriu a porta sem nem olhar-lhe a face. Foi direto para o quarto. Ela pensou em ir até lá, tirar a roupa, mostrar a depilação feita. Mas preferiu o televisor a sua frente. Marido complicado, aquele!
—Cadê o João?—Perguntou o marido já de chinelos. 
—Tá na casa da namorada, falou que só volta amanhã.—Respondeu sem desgrudar os olhos da TV, tomou mais um gole de café. O marido entrou no banheiro. Ela podia imaginar o ritual do marido: tirar a roupa, dobrar, colocar no cesto. Tantos anos de casamento! Dois filhos, um já casado, Graças a Deus!, três casas, os carros, as brigas, o silêncio. Ele poderia ficar com as duas casas, com o carro mais caro. E o filho que fosse morar com quem quisesse. Ela ficaria com casa da praia, gostava de lá, era calmo e o vizinho... Ah, aquele vizinho! Que era isso, meu Deus? Precisava recompor-se. Levantou, colocou a xícara na pia e olhou o chão limpo. Tão limpo, tudo tão esterilizado. Olhou o relógio. Tenho 5 minutos pra entrar no banheiro e pegar meu marido antes do fim do banho. Bateu na porta. Corpo em chamas.
—Valdemiro? Valdemiro?— Ele não respondeu. Talvez fingisse não ouvi-la. Ela esperou com a mão na maçaneta, ele a ouvia. Desistiu. Vou beber mais café. Que isso, Vânia? Você nunca foi disso... Ela se sentou na mesa. Ah! Esquecera-se de desligar o televisor, podia ouvir o moço de sotaque nordestino na sala. Paraíba, talvez. Ou Ceará. Lembrava o filho da manicure. O líquido quente descendo pela garganta. Não mais quente que ela. Deixou o café como estava. Foi para o quarto e abriu as gavetas. O marido saía do banheiro. Secava as costas. Ela pegou uma calcinha vermelha. O marido olhou, desinteressado. Ela começou a se despir.
—Como foi na loja hoje?
—O de sempre...
—Você demorou...—Ela observou colocando a peça cor de sangue.
—Muito trabalho.—Falou ele saindo do quarto. Ela terminou de vestir-se. Para quê aquela calcinha? Para quê? Talvez o filho da manicure ligasse. Ela deu o telefone, deu o endereço. Pensou na diferença de idade entre eles. Meninos nessa idade não querem compromisso. Muito menos eu.
—Cadê a janta, Vânia?
—É que hoje sairíamos para jantar.—Respondeu, seca.
—Ah, me desculpe.—Falou ele sem se importar. Ela fitou as costas do marido, o jeito perfeccionista que ele tinha de sempre querer tudo em ordem. Ela começou a tirar o esmalte. Pensou na última vez em que saíram juntos, na última cavalheirice, no último “eu te amo” verdadeiro, não naqueles falsificados que ele pronunciava, mais por agradecimento que por emoção. Pensou no sexo automático, egoísta do marido. Pensou no jeito ranzinza, na ignorância e quis chorar. Não conseguiu, nem se surpreendeu.
—Que foi, Vânia? Vai ficar aí como estátua? Vem ajeitar a comida.
—Meu bem, você quer que eu compre cigarros?—Perguntou ela, desinteressada deixando cair pedaços de esmalte no chão e foi recolocando a roupa e andando em direção a bolsa. Olhou o relógio sobre a parede.
—Não.—Ele respondeu, ignorante.
—Ah, tá. É que eu vou ali na manicure fazer as unhas e só volto amanhã cedo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fumaça

E ela só conseguia pensar na xícara perto da cama. A fumaça que saía da boca dele e o gato arranhando a porta. Ela quer café, mas não consegue se mexer direito. Será que ele não percebe que a mata também? Era tão estranho abrir os olhos, ver aquele raio de sol iluminando aquele corpo caído, virado para janela. Aquela expressão nervosa de quem não quer olhar nos olhos. Ela precisava mesmo de café. E tinha aquela música baixa, tocando no fundo do quarto. Era quase uma lembrança melosa da dança. E o cinzeiro tá cheio, não te avisei para não fumar aqui? E aquele seu silêncio que doía... o arrependimento dele cortava os sentidos dela. Mas ela quase pediu perdão quando viu o número de cigarros no cinzeiro. E se sentar foi tão dificil, ela não queria chorar, jura que não. Mas ele ainda ficou soltando fumaça, fumaça. Talvez ela tenha perdido o bom senso no corredor.

sábado, 30 de outubro de 2010

Gula

A dignidade ficou na porta.
A culpa foi pelo ralo, mas os vestígios da mentira permaneceram na pia.
Retocou o batom do pecado, renovou o estoque de maldade, recompôs a nicotina.
Sentiu a putrefação e abriu o peito.
Subiu com vaidade enquanto caíam com fúria.
Colocou o vício na carteira, fechou a bolsa e atiçou a gula.

sábado, 18 de setembro de 2010

#Lola

Eu não gosto de lixeira cheia, não gosto de piadas estúpidas, de palavras não filtradas. Não gosto de não ter sorte, de não saber jogar xadrez. Não gosto de sinceridade forçada, de café fraco, de meias sem furo.
Não gosto de quem deixa refrigerante fora da geladeira, de quem ri muito, de quem ri alto, de quem fala demais, de quem finge que me atura, de quem me atura. Não gosto de televisão, de futebol, de música baixa. Não gosto de meninas, de meninos. Não gosto de chocolate, de banda que os integrantes são vivos, não gosto de xícaras vazias, de sorrisos gratuitos. De gente que não mente, de gente que mente.
Eu não gosto de gente.
O nome? Lola.
Não gostou? Nem eu.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Suspiro

A janela. Os carros. As buzinas.
As unhas vermelhas na mesa.
As perguntas. O silêncio.
As unhas vermelhas na mesa.
O silêncio em forma de inseto entrando pela janela.
Minha indiferença. Sua voz entrecortada. Meu pescoço quebrado.
Por que levantar a cabeça ficou tão dificil?
As unhas vermelhas batendo impacientes na mesa.
Silêncio pra digerir as palavras que faziam um bolo na garganta. Você falando de novo.
O bolo crescendo.
Sua pergunta. Meu escárnio. Sua dor. Minha derrota.
A cadeira rangendo contra o chão. Os passos. A porta batendo.
As unhas vermelhas furando a pele.
Os gritos de dor. Os cabelos revoltos.
As unhas eram vermelhas ou seria sangue?
A vista turva. Água. Muita água. De onde saiu tudo isso? Pés descalços no corredor.
A porta do banheiro. A luz acesa. O remédio na pia. Passos arrastados. A vista escurecendo.
As unhas vermelhas em direção ao remédio.
As unhas vermelhas caindo. O chão cada vez mais perto. Os olhos se fechando. Um último suspiro débil.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Indiferença

Ela levantou mais cansada do que havia adormecido, não se preocupou em desligar o despertador do celular, permaneceu imóvel enquanto ouvia as frases da música que tanto mexia com seu íntimo. Esperou pelas lágrimas que deveriam vir, porque sabia que o cheiro que sentia no travesseiro era do perfume dele, que impregnou tudo naquela casa como um vírus, e a cada dia percebia que tudo ali estava doente. Porque tudo ao redor fazia parte dela e apesar de ter a mesma aparência e as mesmas cores, ela sabia que tudo estava se decompondo. Como ela mesma. Em cima daquela cama, esperando por ele, sabendo que não viria. Porque ainda podia ver a imagem dele na soleira da porta, andando sem olhar para trás e ainda podia ouvir seus gritos de desespero, que ecoavam como trovoadas e num dia normal a fariam ter dor de cabeça. Ela piscou mais uma vez e sentiu que as lágrimas não queriam cair. Seus olhos estavam secos demais. E por acidente descobriu que seu coração estava com batimentos compassados, e a dor se esvaíra. Ela continuava imóvel, porque a consciência de tudo preenchia cada espaço vazio. Percebeu que nunca mais seria a mesma, porque ele havia partido, mas de algum modo, a levara junto com ele. Sem se dar conta do que fazia, conseguiu se levantar novamente e ao erguer os olhos para a janela viu o dia lindo que estava lá fora. E respirar fundo já não foi tão doloroso, mesmo com o cheiro dele ainda presente, porque a presença dele sempre estaria ali, grudada em sua carne como uma tatuagem, e querendo ou não, ela teria que se habituar a isso. Mesmo tendo que sofrer novamente. Mas sabia que não iria sofrer, porque seu coração não estava mais no mesmo lugar e o que ela sentia agora era só indiferença.

sábado, 27 de junho de 2009

Os incompreendidos


Sentou-se no fundo do ônibus. Colocou sua mochila no colo e começou a abrir um dos bolsos, a procura de um livro, quando o viu. Sua figura tinha os ombros levemente caídos e mostravam uma certa preocupação, ele tinha um exemplar surrado de "Um Apanhador no Campo de Centeio" entre as mãos. Ele sentava-se em um banco da praça com os cabelos curtos e castanhos soltos, seus lábios vermelhos como um morango estavam entreabertos e seu rosto parecia cansado, mas foram os olhos que chamaram a atenção dela, seus olhos exageradamente tristes e sem foco. Ficou admirada ao ver a dor refletida em seu olhar, teve vontade de descer do ônibus e se sentar ao lado dele, ela só sentaria. Não diria uma palavra. Sentaria a seu lado e o fitaria por alguns instantes. Uma onda de um sentimento que não pôde distinguir a invadiu ao vê-lo erguer a cabeça lentamente em sua direção. Seus olhos negros se moveram em milésimos de segundos, que mais pareceram uma eternidade e ele a fitou. Seus olhos incrivelmente nostálgicos se grudaram nos dela e ambos sentiram um arrepio.
Ele não desviou o olhar. Seu olhar penetrante a atingiu e ela ficou estática. Não precisaram de palavras. Eles se compreenderam com um simples olhar. O ônibus começou a andar e ela se despediu silenciosamente, ele continuou parado, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Ela baixou o olhar para o livro que pegara na mochila, o coração reconfortado por saber que em algum lugar do mundo existia alguém que a compreendia.


Ela se assustou ao ver o ônibus parando novamente e seu coração acelerou quando ela olhou para cima e o viu, entrando no ônibus. Ele se sentou ao lado dela e sorriu ao ver o exemplar de "Um Apanhador no Campo de Centeio" nas mão dela, com um aceno de cabeça indicou o dele.


Eles se olharam e desejaram que aquele momento jamais acabasse.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Conto de terror

Ela olha para o espelho e suspira com pesar. Suas olheiras refletem o cansaço de viver e seu rosto jovem reflete a falta de anos vividos. Permanece calada padecendo sob sua dor enquanto caminha para seu quarto e se joga na cama cobrindo a cabeça.
Ela fecha os olhos com força e permanece calada enquanto percebe algo se movendo em sua direção e sussurrando seu nome. Ela sabia de quem era aquela voz, mas não se virou para olhar. Não se moveu. A voz a chamava e ela fingia não ouvir. Ela começou a arfar enquanto uma mão gélida e pálida como lua se movia abaixando a coberta que cobria seu rosto apavorado.
Ela não abriu os olhos.
Sentiu de súbito um hálito gelado e podre no pé de seu ouvido e manteve intacta sua fé de que era só um sonho enquanto ouvia um barulho rouco e sentia algo molhando seu rosto.
Com um pânico crescente percebeu que o som rouco saíra dela e que o que molhava seu rosto eram suas próprias lágrimas, ela começava a ficar cada vez mais apavorada quando ouviu a voz sussurrar em seu ouvido:
-Vou ser breve. Não tenha medo...- A menina abriu os olhos devagar e por todo o quarteirão reverberou-se um grito de pânico e dor saiu de sua garganta. No dia seguinte todos comentavam o ocorrido.
-O coração dela simplesmente parou de bater.
-Dizem que morreu de pânico...

Continua...