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sábado, 14 de maio de 2016

voltei

voltei, mas antes que não tivesse voltado.
depois de anos no fundo eu ainda sou a mesma. a fase adulta só prejudica as vezes quem nós queremos ser.
e com a mesma trilha sonora, depois de seis anos (eu acho), ainda sou a mesma.
não é assustador pensar que mesmo adulto ainda somos absurdamente inseguros? e sozinhos.
queria excluir isso aqui, passar um corretivo nessas mágoas que não conseguia falar com ninguém, ainda porque achava que ter diário na internet é coisa de adolescente. e eu hoje sou mulher feita. não sou? estudada, comprometida, sai sozinha, volta sozinha, pode beber, dirigir, falar palavrão, rir alto, falar de sexo e esperar as críticas. pessoa livre. livre?

pensei em mudar também, talvez um blog com outro endereço me representasse mais. eu senti saudade daqui, essa é a verdade. mas acho que no final me acostumei a imaginar que quem escrevia não era eu, mas uma parte perdida, adormecida. mentira.

não sei o que eu quero dizer, mas sei que agora me convenci de que foi bom ter voltado. quem seríamos nós sem nós mesmos, não é? se eu admitir, talvez, minhas partes, eu fique menos desintegrada.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

deve ser coisa de filha única

às vezes eu queria saber descrever umas coisas. só pra todo mundo saber como foi bonito e o que eu senti. mas se o sentimento é bom e me anima e me faz tremer de rir eu não consigo dividir com ninguém.
é egoísmo.
até meu egoísmo eu divido. mas uma risada não.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Aqueles dias

Aqueles dias que eu sorria até pros panfleteiros e distribuía elogios por aí.
Teve gente que não acreditava que eu pudesse mudar tanto, mas a gente sempre dá um jeitinho de ir mais a fundo e revirar no fundo da alma pra ver o que descobre de bom.
E com todas aquelas amizades fofas e sorrisos e dias de sol eu passava a vida olhando tudo, crendo em tudo e sentindo tudo. Tem sempre aquilo, aquele, aquela que você volta a encontrar e te dá um aperto no peito. Eu queria aperto na cintura. Aperto de mão.
A vida pode ser bonita se a gente pinta tudo de azul e pára de assistir jornal.
Virgens Suicidas, Quando duas mulheres pecam, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, Réquiem para um sonho...
Vamos deixar o sofrimento pra ficção das tardes.
A minha gatinha gorda e preguiçosa, eu mais gordinha e preguiçosa e rindo. O bolo queimando e eu nem aí.
Entender que a gente anda conforme o passo. Deixar os conflitos pra trás.
Deixar as velhas pessoas pra trás. Acreditar em Deus.

A vida só é boa quando a gente ignora o que tem de ruim.
Mas a questão é que isso não pode durar pra sempre.

domingo, 1 de julho de 2012

"Quem sabe a temperatura do fogo é a panela"

Não gosto disso de cobrarem mais de mim do que dos outros. Não é pra todo mundo ser igual?
Mas é que se você passa a sua vida inteira se comportando de uma forma, sendo SEMPRE de um determinado jeito, não tem como fugir. E eu tento fugir.
Tô me cansando de fingir ser o que no fundo eu não sou, não tenho mais tempo pra ficar bancando aquela antiga pessoa. De uns tempos pra cá essa pele que eu visto começou a me pinicar, essa máscara no meu rosto tá me causando alergia. Esse é o momento em que "quem sabe a temperatura do fogo é a panela" e eu entendo isso. Só que você não entende, vocês não entendem.
Esse mês eu parei de levar a sério, ando fazendo tudo porcamente, da pior forma possível. Mas eu ainda faço.
Se eu fosse menos submissa talvez eu conseguisse me safar. Mas agora que já abusaram de mim esse tempo todo, que já me esfolaram esse tempo todo, que já me humilharam esse tempo todo, não tenho muito o que fazer. Sei que andam me espreitando e fazendo ameaças que não vão surtir efeito. Eu me conheço, não funciono sob pressão. Não esse tipo de pressão, não nesse momento. E as suas ameaças não são válidas.
Eu também perdi a fé. Não acredito nele, nem em você, nem em ninguém na face dessa Terra. Nem fora dela. Falei da fé porque o respeito por ele já perdi há séculos. No seu caso, bem, no seu caso eu não sei.
Se você me chama de besta, se você grita comigo, se você diz que eu preciso de você, se você ameaça me bater...eu não vou te respeitar também.
Mas não é só isso (nunca é só isso). Teve aquele momento que precisei conversar e você não estava, teve aquele momento que precisei de orientação e você não estava, teve aquele momento que precisei mais do que nunca e você não estava. Às vezes eu te parto ao meio, te atinjo no ponto fraco e você se machuca e me maldiz. Mas eu já te disse: não tenho medo de palavras, não me amedrontam.
Me tire de lá, eu sou a fruta podre, vou acabar com todo mundo. É melhor eu sair mesmo, nunca fui boa coisa, acho que nunca vou ser boa coisa.
Eu tenho sonhos ruins toda noite, eu me sinto cansada todo o tempo, não tenho disposição pra nada. Nem pra você. Inclusive pra você. O que me faz feliz você ignora, o que te faz feliz eu desprezo.
Mas sabe o que me esfola mais nisso tudo? A minha falta de coragem.
Se eu estou desistindo é por simples medo de não conseguir, então você deveria entender que eu preciso de ajuda, não de ameaças ou de esporros. Mas agora eu já desisti. Tanto de mim, quanto de você, quanto de tudo. Da vida, talvez. Mas ainda não tenho tenho coragem de desistir totalmente disso.
Se eu estou comendo como louca é porque eu estou ansiosa, não é por falta de educação, acomodação ou burrice (você adora me chamar de burra). Você não tem que me chamar de gorda, me mandar fazer execícios, regular o que eu como é só entender. Se você entender eu paro.
Talvez você só precise me perguntar como eu estou no meio disso tudo. Não é bem, você pode ter certeza.
Mas ainda temos momentos bons, ainda temos um tempo pela frente. Mas, do fundo do meu coração, espero que esse tempo seja bem curto.
A gente se distanciou bastante, já não te falo mais do meu dia, da miha vida, do que eu faço.
Eu minto também, mas é por medo. Eu choro também e é de culpa.
Mas talvez no fundo a culpa seja sua e eu seja a vítima. (Mesmo fazendo tudo errado, mesmo sendo torta por dentro e por fora, não sendo do jeito que deveria ser.) Adoro me fazer de vítima, dá pra chorar e fingir que estou morrendo de dor.
O problema é que eu realmente estou morrendo dor.

segunda-feira, 5 de março de 2012

2012

O grito que sai do meu peito e que treme as minhas estruturas não foi eu quem começou. Não sou eu que maldigo o tempo e peço a morte, não fui eu quem errou primeiro.
Eu só quis que você olhasse e percebesse e sentisse e abraçasse. Lá fora, bem atrás daquelas paredes, eu sei que as águas escorrem inundando casas. Mas aqui está mais molhado. Lá fora, onde as cores são sóbrias e faltam expectativas, existe gente que olha para trás e grita como eu. E se a dor que sai de mim é maior do que todo meu ódio, por que não sucumbir?
Eu descobri o que é ter, o que realmente quer dizer, um dia ruim. Eu descobri que fui abandonada há anos atrás, mas a consciência da maldição caiu sobre meus cabelos e me molhou toda.
Se fosse apenas o descaso, a falta de compreensão, mas nem mesmo um olhar? Nem mesmo uma palavra de apoio?
Lá fora a água torrencial destrói tudo, mas parece que aqui está tudo quebrado, tudo partido, tudo. E eu me quebro mais. Antes morresse de novo, antes eu não tivesse ninguém.
A questão é clara, mas só agora posso ver. É que sinto mais medo do que nunca, é que tenho mais chances de errar do que nunca. Ano horroroso, vida horrorosa.
A tempestade que sacode tudo e treme a minha casa me arrastou e por mais que eu tente eu não volto mais. Desde àquele dia, desde àquele momento, eu não sei mais onde parei.
É que tem tanta coisa surgindo, tanta gente por aí que não sei.
A tempestade, agora eu entendo, está dentro de mim. Lá fora é tudo normal, lá fora tudo existe independentemente das minhas desilusões, mortes, esquartejamentos vivos. Lá fora tudo resiste, o que treme sou eu. O que morre sou eu, o que inunda sou eu.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fênix

O problema, e talvez seja essa a questão, é seu. Mas não é culpa sua. É que está quente e você quer dormir e tem o cansaço e tem o estresse...
Mas é que aí você prefere morrer a abrir apostila.
Oh, Senhor, me mate agora, porque esse mundo que espera algo de mim não me merece.
E se eu não quisesse fazer nada? E se eu preferisse viver por aí? Essas pré-obrigações já me sufocam, as pessoas me sufocam, não é (só) o choro, mas as pessoas me sufocam. As pessoas que me matam, que me esfacelam várias vezes ao dia para eu renascer das cinzas e morrer de novo. Hoje eu estava pensando que estou na turma errada, que está tudo errado. Quem sai e se diverte e tem vida e bebe e faz mais amizades é mais feliz do que você que lê e assiste Cine Conhecimento. Você que tenta ouvir mais e falar menos nunca é levada em consideração. Cadê o nerdpower agora?
E seus pais que te julgam, te esmagam e tentam te forçar a ficar na linha que para você é torta. Você que já está na linha há anos e não consegue mais tomar nenhuma atitude que não condiga com ela.
Não é só a questão do olhar, as pessoas perguntam, exigem. Mas e se eu não quiser nada? Essa questão de ser levada pela correnteza por um caminho que você não escolheu seguir, que foi escolhido quando você nasceu. Eu não quero mais, não é para mim, desculpe. Se eu tivesse dito isso antes, se eu tivesse desistido antes, talvez ainda houvesse tempo de procurar saber, de ser menos infeliz e parcialmente bem-amada.
É que eu preciso de uma mão, eu preciso de apoio, eu preciso. Por favor, sem perguntas e justificativas, é que hoje, excepcionalmente hoje, eu preciso me debulhar em lágrimas porque eu não agüento mais andar por aí como se tudo fosse perfeito e não estivesse preocupada.
Por que? Eu, que só tenho 16 anos mal vividos, tenho que decidir agora? É que só quero sair, só quero amar. Será que ninguém leva em consideração meus sentimentos e hormônios?
“Mas você tem que passar por isso, é assim com todo mundo.”
É, é assim com todo mundo. E eu pergunto:
“Todo Mundo, como você agüenta? Porque eu já estou cansada e sem uma Mão não posso suportar mais.”

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre estar perdida

Teve vontade de colocar uma bomba na boca. Mastigá-la com todo seu ódio e sentir os fios arranhando as entranhas antes de explodir. Olharia o almoço escorrendo pelas paredes, os pedaços da sua carne fraca e riria da própria má sorte com a voz esganiçada de uma vendida.
Era aquele sentimento de não estar bem consigo mesma, aquela vontade repentina de arrancar os sonhos com as unhas mal feitas. Abrir um buraco com faca de serra. E ver seu corpo se arrastando pelo chão em um geotropismo positivo de dar pena.Tirar a pele com pinça e zombar da sua "arte" burguesa que só olha para o próprio umbigo. Seu intelectualismo duvidoso, seu romance de conto erótico, suas amizades fedorentas. Arrancá-los com um canivete enferrujado e se perguntar o porquê de viver. Ser escalpelada pelos pecados. Provar seu próprio veneno.
Morrer.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Boa

E talvez eu tenha esquecido do quanto eu gosto da minha cama, meu espaço, meu ar, minha vida.
Mas se é por um bom motivo de que vai importar a revolta agora?
Eu vou chegar até lá e sorrir, sorrir, sorrir. Seja uma boa menina.
E aqui dentro eu tenho um quarto que não é meu, um cheiro que não é meu, uma vida que não é minha.
Eu perdi a vergonha a caminho da praça, vendi a felicidade para comprar batatas e o sorriso frio foi ensaiado meticulosamente. Inferno!
"Não repita essa palavra de novo, isso não é coisa de menina decente!"
E olha só aquela saudade subindo as escadas. Eu acho que se pintar a unha de rosa ele vai pensar que mudei. Mas eu mudei, de verdade.
-Ei, não fujo mais de casa e não misturo sorvete com batata frita.
Mas todo mundo mudou. Todo mundo já toma vodka. E todo mundo sai. Menos eu.
Se eu quebrar essa mesa o castigo vai ser muito grande? Eu tenho tanta vontade de sumir, sumir, sumir. Só para não ter o trabalho de encarar tudo de novo. A vida de novo. Como me cansa!
E eu quero ser uma boa menina, menina boa não dá. É vulgar. De vulgar já me basta o short curto. E o batom. E o cabelo solto dessa forma.
"Que decote é esse?"
Por que será que eu não uso isso na minha cidade? É medo? Confessa, vagabunda, fala do medo do nome na praça!
Boa, boa, mas boa para quem? Ah, a resposta já vem! Não vou ser ingrata, ingratidão é uma coisa terrível!
Por que não me faço entender? E se me entenderem o que acontece? Aí perde a graça!
Para com isso! Não pense assim! Sorria, sorria, sorria.
Talvez você tenha talento para a felicidade.
É, talvez.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Pintura

Se eu pudesse pintar meu sonho, eu pintaria uma parede com pequenos sorrisos de nervosismo. Pintaria uma batata frita entediada e pés se balançando. Pintaria um xícara de café disfarçada de paixão, pintaria o rosto dele no meu travesseiro. Pintaria um uniforme e um sorriso de vitória. Pintaria um beijo roubado num cinema com filme de nerd. Pintaria uma decepção do tamanho de uma melância e um hospital com choro alto. Pintaria uma menina pálida de olho caído e uma mão maldosa debaixo do vestido de morango. Pintaria um cabelo bagunçado com fita roxa e um pequeno medo escalando as cortinas. Pintaria uma amizade que foi ralada e uma criancinha barriguda. Pintaria nossa música que nunca existiu e uma esperança que nunca tive. Pintaria o amor que me prometeram e que se perdeu no caminho da verdade. Pintaria cálculos sem solução e uma careca com sorriso de gengiva. Pintaria uma cadelinha caída na estrada com olhar moribundo e uma gatinha vomitando sangue perto de uma adolescente chorosa. Pintaria uma certeza falsa e um sorriso podre. Pintaria o nada e um cotovelo estourando de dor.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Vendida

Eu me vendi. VENDIDA. Vou andar com um crachá por aí. E o pior é que a culpa não é deles, que me mandam fazer o "certo", que me mandam ser como eles. Eu sou mesmo a bosta. Só uma vendida para trair seus ideiais! Certo é ser pequena, é não sentir nada, não ser feliz. Tenha família, tenha uma casa, um emprego, morra. E não vou fazer nenhuma diferença, porque vou ser como eles. VEN-DI-DA. Eu tenho pena de mim, porque eu sou covarde. A verdade é que não lutar pelo que você quer é ser covarde, não ser capaz de enfrentar a maré que vem contra você. Eu só me rendi e ver aqueles que continuam lutando é triste. Porque eu sinto pena de mim por não ser como eles. "Estou tão cansada de mim mesma." Eu queria ir embora, fugir (olha meu lado covarde de novo), eu não quero ser eu. Eu tenho sonhos demais pra tão pouca idade, tenho medo demais pra tão pouco coração, tenho poucos anos demais pra tanta decepção. E me sinto tão envergonhada de pensar assim. Não tenho direito de querer ser feliz porque minha felicidade seria a tristeza de alguns. E eu aprendi a fazê-los felizes. Mas eu me destruo. E sem perceber espalho veneno por aí, porque minha tristeza é ácida, acabo ferindo que não tem nada a ver a também. Eu queria poder ir embora, agora mais do que nunca eu tenho vontade de ir. Mas é que eu sou tão covarde pra isso também! Eu não quero ser eu!!! A culpa é de quem? Fico tentando encontrar um culpado, quero ter quem odiar, porque isso de odiar a mim mesma está me destruindo. E o pior é que nem tenho direito de me sentir injustiçada. Injustiça seria não fazer o que me mandam, porque seria ingratidão. Eles me deram tudo, tudo que o dinheiro poderia comprar. Tudo que aquele pouco dinheiro poderia comprar, eles me querem alguém que eu não nasci com vontade de ser. E nem posso reclamar, reclamar de quê? Acho que perdi o direito de sonhar, ou melhor, ganhei o direito de realizar um sonho que não é meu. Não é para isso que a gente nasceu? Eu estou tão sozinha de repente! E esse batimento acelerado não há ninguém que entenda. Eu queria ter pelo menos o direito de chorar, porque não tenho nem o direito de sofrer. Será que alguém me entende? Eu queria ter alguém, não é só para beijar, porque eu nem entendo muito de beijo. Eu só queria ter alguém para chorar, saber que eu vou poder ser infeliz com alguém. Olha só, eu de novo, covarde. Será que não consigo enfrentar meus problemas sozinha? Eu queria amanhecer nos seus braços, sei lá o que vão pensar. Agora que me vendi para comprar um sonho que não me interessa, que não me faz feliz, sou mesmo uma vadia. Ficou tão chato de repente! Eu não quero mais nada disso. Por que a vida é assim? Eu não caibo na minha pele, quero um jardim com flores que não me interessam, quero amanhecer com as mão cheias de frutas podres, quero uma árvore para olhar. Mas agora o que eu mais quero é que amanheça logo. Quero que o dia acabe, para eu poder levantar bem. Mas é uma tortura saber que até o final do dia vou estar sentindo tudo de novo. Ah, como eu odeio tudo isso!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Xícara

Eu vi uma faca hoje e pensei em cortar a pele.
Só um pouquinho.
Para ver o café escorrendo das minhas veias. Mas fiquei com medo de furar demais, romper alguma coisa importante e nunca mais poder segurar uma xícara.

Curiosidade

Eu fico guardando tanta coisa dentro de mim que eu acho que qualquer dia desses eu vou explodir.
E a minha maior curiosidade é: o que vai escorrer pelas paredes?
As palavras que ficaram entaladas ou os sonhos que cresceram demais?

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ele

E ele tinha aquela casca. Aquela crosta que não cabia, que não era dele. Aquela pele maldita, a boca maldita, o corpo maldito. Um corpo que não se encaixava, que não se media.
E eram suas palavras falsas, seus roucos lamentos, eram suas ambições. Tudo demais/menos para ele.
Era aquela roupa furada, um desejo furado. Tudo salpicado.
E ele se arrastava, rastejava numa existência vã.
E ele não era ele, nunca foi ele.
Porque ele simplesmente nunca existiu.
E se existiu, nunca teve muita importância.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Café

A mão está fria. Segurando o café com os dedos trêmulos. O cigarro está acabando. A fumaça vai direto para o cabelo. A tosse é seca, a roupa é suja. Suja de vodka. Cheiro de álcool, alguém chamando no portão. Quem? Era o gato, o gato com os olhos amarelos e o pêlo negro.
O nariz sangrou, a ferrugem não enjoava. O sangue chegou aos lábios. Nem ralo, nem muito vermelho. O espelho partido. Uma rachadura enorme. Nenhum vestígio de lágrimas. Nenhum vestígio de dúvidas, tristezas, nada. O céu estava adivinhando a maldição.
Cadê?
Deve estar na bolsa, com os cigarros. Todos os cigarros intactos. Não, não está na bolsa. Deve estar debaixo do tapete, com as conversas sussurradas. As conversas sobre a mudança, a separação, a doença. Não, não está debaixo do tapete. Procure mais um pouco... Não, está nem aqui, nem ali. Deve ter se mudado para um texto que faça sentido. Ou para casa de alguém que tenha sentimentos.

sábado, 24 de abril de 2010

15

Quando abriu o olho viu só sua mãe acenando. "Já está na hora." Era sábado, mas tinha curso. E quando tomou banho, foi normal. Quando se arrumou, foi normal. E foi pro curso. E assistiu a aula e encontrou as amigas e teve esperança, mas ninguém falou nada. Ela se desanimou. Sorriu. Fingiu. Mentiu. Tudo como sempre. E foi embora. A chuva vinha vindo, molhando seu cabelo, sua roupa, sua alma, arrastando os vestígios de quem espera algo. Ela se escondeu, foi pro shopping e ficou sentada, esperando. Nada. Tentou mais uma vez. Ligou de novo. Nada. E balançou as pernas. "Eles não são obrigados a lembrar" Sacudiu as mãos, esperando, esperando... Nada. Foi embora. Ficou o tempo todo olhando pra janela do ônibus, pras gotas de chuva. Parou de chover e ela só reparou na descida do ônibus. Chegou, entrou no orkut. Nada. Nenhum recado. Deitou na cama, fechou os olhos e chorou baixinho. Nem é importante. São só seus 15 anos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Minutos

Eu gosto de ficar olhando os carros que vem na direção contrária. Meus olhos começam a lacrimejar. A ponte cada vez mais iluminada me deixa extasiada. Aquelas luzes parecem comprimidos pra felicidade. Me sinto quase feliz. Depois de respirar com força, sinto o ar entrando e quase me sinto viva outra vez. Meus dedos se machucam nos muros das casas. O sangue é um pouco ralo e posso sentir o cheiro de culpa em cada gota. Depois de correr o dia todo, sempre atrasada, perdendo a hora por distração, tenho meus minutos de paz e faço o maior esforço pra não voltar tão cedo pra casa. Eu fico parada olhando para o rio e o meu tênis sujo fica se sacudindo de um lado para o outro. Acho que meus pés ficaram dormentes, mas estou tão livre do cansaço que continuo caminhando lentamente, tentando aproveitar cada minuto. Dentro de mim uma chama pequena ainda está acesa e eu fico tentando mantê-la ali por mais um tempo. Lá no fundo dos meus sapatos começo a sentir um frio conhecido subindo as minhas pernas. Desacelero mais os passos. Em vão. Olho para trás, perdida. Mas a estrada fria me puxa, o asfalto enfia agulhas no meu coração. E meus olhos perdem o brilho, sem ter certeza, continuo sendo arrastada. E deixo pra trás os minutos só meus. O que me consola é saber que amanhã vou ter tudo de novo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Suspiro

A janela. Os carros. As buzinas.
As unhas vermelhas na mesa.
As perguntas. O silêncio.
As unhas vermelhas na mesa.
O silêncio em forma de inseto entrando pela janela.
Minha indiferença. Sua voz entrecortada. Meu pescoço quebrado.
Por que levantar a cabeça ficou tão dificil?
As unhas vermelhas batendo impacientes na mesa.
Silêncio pra digerir as palavras que faziam um bolo na garganta. Você falando de novo.
O bolo crescendo.
Sua pergunta. Meu escárnio. Sua dor. Minha derrota.
A cadeira rangendo contra o chão. Os passos. A porta batendo.
As unhas vermelhas furando a pele.
Os gritos de dor. Os cabelos revoltos.
As unhas eram vermelhas ou seria sangue?
A vista turva. Água. Muita água. De onde saiu tudo isso? Pés descalços no corredor.
A porta do banheiro. A luz acesa. O remédio na pia. Passos arrastados. A vista escurecendo.
As unhas vermelhas em direção ao remédio.
As unhas vermelhas caindo. O chão cada vez mais perto. Os olhos se fechando. Um último suspiro débil.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Eu prometo

Eu prometo que essa é a última vez que vou entrar no seu orkut pra ver os recados que ela te mandou. Prometo que nunca mais vou perguntar por você para meu primo no msn. Prometo que não vou mais chorar ouvindo aquelas músicas idiotas. Prometo que vou estudar três horas todo dia. Prometo que vou parar de roer unha. Prometo que nunca mais vou ficar olhando aqueles caras idiotas e bonitos. Prometo que vou parar de chorar porque você não sofre por mim. Prometo que vou ficar menos tempo no msn esperando você ficar on-line só pra sentir meu coração acelerar. Prometo que vou ignorar aqueles gatinhos bonitinhos da loja de ração da esquina. Prometo que não vou mais chorar assistindo filmes. Prometo que vou sair do teatro pra ter mais tempo pra coisas úteis. Prometo que nunca mais vou me sentir mal quando aquelas meninas populares me esnobarem. Prometo que vou começar a gostar de trigonometria e física.

Eu só não prometo que vou parar de mentir.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Outros tempos

Há um ano atrás eu estava aflita. Não queria mais a mesma comodidade dos anos anteriores. Desejava o ardor de lutar por algo, a vontade de esquecer de tudo e ao mesmo tempo não perder o foco. Eu ria da minha desgraça e fazia esforço pra limpar os olhos quando chorava no banheiro. Ansiava por liberdade e formava ideologias. Hoje talvez até riria um pouco da minha ousadia ao defender nos debates as soluções para a sociedade que eu ainda acho doente. Já era viciada em chocolate e talvez eu tenha comido umas três barras entre os intervalos de aulas. Não imaginava como seria tudo dali em diante, mas queria tanto viver que algo dentro de mim praticava me empurrava enquanto andava e basicamente me obrigava a acreditar que amanhã tudo seria melhor. Hoje odeio tanto esse otimismo, mas parece que sou obrigada a ficar repetindo-o para os outros e é estranho abraçar alguém enquanto chora quando você também está sofrendo. Antes eu ainda era cheia de sonhos e perspectivas menos realistas do que as de hoje, mas talvez eu fosse a Kênia que vai se perdendo aos poucos e aprendendo que o mundo está cada vez mais do jeito que eu digo e menos como queria que fosse. Meus deletérios se agravaram, mas a letargia continua a mesma. Ainda procuro motivos para viver, tentando sonhar mais uma vez e agarrar tudo em que creio com as duas mãos. Minhas ilusões eram mais saudáveis e minhas incertezas eram quase certas e menos trágicas. Talvez tenha restado um pouco daquela jovem crítica e um tanto revolucionária na poeira da minha existência. Lembrar de tudo aquilo parece mais surreal agora que acredito menos em que um dia tenha existido dentro de mim uma garota que se esforçava muito pra ser feliz e que independentemente de conseguir ou não, acabava rindo no final das contas. Acho que sinto falta dela.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Declaração

Hoje só uma coisa a declarar: lágrimas.
Mas eu sei que vai passar. E depois eu vou poder falar melhor sobre isso.
Me desculpem.