quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Verme

Estou cansada desse nosso parasitismo. Nossa relação pútrida e abominável já me fez sofrer demais. Foi bonita enquanto meu masoquismo a permitiu existir. Saia de mim agora, seu verme! Não ouse implantar mais uma gota desse seu veneno letal no meu organismo, muito menos tentar me convencer de que estou errada com essa sua estúpida retórica. Vá embora com esse seu narcisismo exacerbado e nunca mais, nunca mais olhe nos meus olhos novamente. Eu vou assassinar essa cria imunda que você plantou em mim. Esse amor odioso que me consome. Que mata minhas esperanças e faz meu coração parar de bater aos poucos. Essa é a última vez que morrerei por ti. Juro, sobre esta terra amaldiçoada, que nunca mais sangrarei por você ou qualquer outro. Me deixe em paz agora e nem pense em olhar para trás. Saí daquele abismo escuro e minha letargia se foi junto com a nostálgica certeza de que havia te perdido. Perdi ganhando. Vou abrir espaço no meu peito confuso e deixar o caminho livre para aquele que realmente deseja entrar. E, ai dele se fizer as mesmas coisas que você fez. Esse meu riso de escárnio estava preso há muito tempo. E agora que ele saiu não sei porque acaba de se transformar em soluços...

obs: Me desculpem por isso. Outro dia explico esse meu estado de espírito.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Abismo

Me perdi em meio as nossas controvérsias. Sua falta de ação e timidez me preencheram de tal modo que a incerteza falou mais alto. Lamento não poder voltar atrás para redesenhar nossa vida repleta de sentimentalismo e dúvidas. Sei que se você pudesse faria o mesmo, está escrito no seu olhar toda vez que um silêncio nos preenche depois de uma piada com palavras que se fossem ditas sem o humor, seriam uma bela declaração de amor. Talvez se não fôssemos tão medrosos e nos encarássemos ao invés de olhar para o chão como quem espera uma resposta que nunca virá, estaríamos mais felizes agora com nossos lábios unidos e seu calor penetrando em minha pele mais intenso do que quando nossas mãos estão coladas umas as outras. Como se não bastasse as barreiras invisíveis existentes entre nós, há ainda ela que sonha com você e o ama tão loucamente como eu. Ou mais. Seria bem mais fácil se não a víssemos morrer toda vez que ela me vê com você ou se eu não morresse toda vez que os olhos dela brilham e ela espera, com o coração acelerado, uma declaração sua. E nós duas vamos ressuscitando e mesmo sem querer, sobrevivendo. E você vai partindo, mesmo sem perceber, dois corações que já não são tão puros, corrompidos pelo calculismo e pela frieza que faz parte do mundo em que vivemos. A medida que o tempo vai passando, vamos ficando mais gastos pela poeira tóxica que sai de nossas almas e pela velhice precoce, nosso abismo vai se alargando devagar e vamos percebendo que a distância entre nós já é enorme. Tentei ultrapassá-la, usando minha paixão ardente e a pouca coragem que me resta, só que, mais uma vez, acho que morri tentando.
E dessa vez, eu não sobrevivi.

(...)

“Sempre senti, a vida inteira, que as páginas que ia deixando à minha passagem eram parte de mim. As pessoas normais trazem filhos ao mundo, nós romancistas, trazemos livros. Estamos condenados a deixar a vida neles, embora quase nunca nos agradeçam por isso. Estamos condenados a morrer em suas páginas e, às vezes, a permitir que elas acabem nos tirando a vida.”

O jogo do Anjo - Carlos Ruiz Záfon

sábado, 10 de outubro de 2009

Idiota

Flutuei por alguns dias. Vivi intensamente alguns instantes e morri muitas vezes, em outros. Sorri e chorei. Mas agora, olhando as minhas costas como quem olha para a eternidade, tudo parece tão distante. Talvez eu não devesse ter acreditado tanto que tudo é possível e que a felicidade não é uma mentira. Hoje, quando olho para você com ela, percebo o quanto fui idiota. Não sei se me iludi por me perder no seu olhar, ficar com as pernas bambas quando você me sorria ou por ter acreditado, enquanto conversávamos, que eu poderia ser correspondida enquanto ouvia a melodia grave e sincera que é a sua voz. Chorei enquanto voltava para casa e deixei que percebessem o quanto me doía ver você escapulindo das minhas mãos. Me machuquei mais dessa vez, porque acreditei que desfaleceria em seus braços enquanto o trovejar silencioso de seu coração me fizesse dormir. Você me fez perder o controle e minha ferida aberta me faz, enquanto desabafo com palavras que nunca serão o suficiente para descrever o que você representa para mim, chorar. Choro por ter sido idiota, por me deixar abater por algo que veio tão rápido e avassalador, que só poderia ser uma mentira. Mas não foi. E meu coração agora está tão despedaçado, que às vezes me pergunto porque continua batendo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sei lá.

Hoje eu quero gritar. Meus olhos estão ardendo e sinto vontade de correr. Balanço a perna freneticamente olhando para os lados como se estivesse sendo seguida. Penso besteira com meus botões e aperto o livro em minhas mãos como uma arma peculiar. Minha postura desleixada com a maior parte do corpo pra fora da cadeira chama um pouco a atenção de quem passa, mordo lábio inferior e sinto gosto de sangue. Hoje eu só quero ficar no meu canto. Dormir. Pensar. Ler. Ouvir Los Hermanos. Dançar Beyonce escondido. Ou chorar um pouquinho ouvindo Cazuza. Sei lá. Hoje eu quero a solidão dos dias ensolarados e sons de sorrisos distantes. Hoje, só hoje, não vou pensar em beijá-lo. Hoje eu quero descobrir um pouco mais de mim.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Meus fragmentos

Sinto você como gotas d'água que vão deslizando e indo embora devagar. Tenho medo de cansar de vê-lo evaporar aos poucos e secar as minhas mãos. Mas sei que vou fazê-lo e tenho medo de que você o faça. E também sei que o fará.
A minha vida toda tive medo de me sentir sozinha, vou me perdendo aos poucos num abismo escuro. Mas no fundo sei que estou só.
Sinto pedaços de mim caírem aos poucos e vou me fragmentando a medida que o tempo passa e as pessoas vão partindo e levado meus cacos, ao mesmo tempo em que novas pessoas aparecem e eu vou me modificando e aprendendo coisas com cada uma delas. Se fecho os olhos a vida não parece tão sombria.
Tenho vontade de segurar suas mãos e não soltá-las. De guiá-lo por todos os caminhos tortuosos dessa estrada, mas sei que não durará para sempre. Porque talvez isso seja um engano e, no fim, só uma dessas recordações que guardamos em uma gaveta escura e empoeirada que quase nunca abrimos, ou talvez isso ainda vire piada ao encontro de dois antigos amigos que vão se encontrar por acaso e tomar um rápido café ou então isso não termine.
Eu só queria te dizer que agora, enquanto escrevo esta carta com os olhos um pouco marejados e com o coração carregado de desespero, isso tudo é real.
Porque você me ajudou como ser humano, mesmo que isso tudo seja um grande engano ou uma verdadeira paixão, seus olhos castanhos e sérios bateram fundo em mim e inspecionaram minha alma, me fizeram crescer e regredir, sonhar e acordar, e, principalmente, sentir sensações novas.
Uma dor vai crescendo no meu peito ao setí-lo se afastar, um buraco que vai aumentando aos poucos porque você faz parte de mim, e hoje eu choro. Mas um dia vou me sentir mais forte para poder olhar em seus olhos sérios e dizer:
"Obrigada por existir e me ajudar a construir parte de mim."

terça-feira, 14 de julho de 2009

E se?

E se eu falasse que tenho inveja de um monte de gente? Que não tenho medo do escuro, mas prefiro luzes acesas? Que sou hiponcondríaca? Que tenho instintos assassinos toda vez que vejo aquelas meninas estúpidas usando aquelas roupas que me intimidam falando de festas em que não fui convidada e andando de mãos dadas com meninos que muitas vezes sonhei? Que não gosto Michael Jakson? Que eu apóio o presidente e tenho orgulho de ser brasileira? Que gosto de Bruno e Marrone? Que vivo com medo de estar sendo filmada quando converso comigo mesma no espelho e fico fazendo poses para uma câmara imaginária? Que tenho pesamentos sórdidos? Que não olho para os lados a maioria das vezes quando vou atravessar a rua e que quase todo dia por um triz não sou atropelada? Que não gosto de certos professores? Que prefiro teatro a cinema? Que destesto Paulo Coelho? Que escuto música de emo, pagode e axé? Que gaguejo quando converso com um cara forte sem camisa? Que tenho trauma de escadas e que odeio lugares altos? Que sou ciumenta e egoísta? Que tenho fobia de elevador? Que acho meus pés horrorosos e minha bunda grande demais? Que tenho vergonha de um monte de coisas que deveria me orgulhar? Que vivo dizendo que não gosto de criança pequena, mas fico toda boba quando vejo um bebezinho, mesmo que tenha meleca no nariz?

Que...bem, e se eu falasse que me chamo Kênia, tenho quatorze anos, estou completamente apaixonada e não sei realmente se quero fazer medicina? E se eu falasse que essa sou eu?!