Bete não podia ter filhos. Depois do câncer ela não pôde mais ter os tão sonhados rostinhos gordinhos ao seu alcance. Era jovem, bonita, rica, respeitada. Mas não podia ter filhos. Bete a noite levantava e andava pela casa, perdida, queria morrer. O marido ali, sempre presente, sempre, como um cão fiel. Aquele amor irritava às vezes. Deixava de cuidar da filha Diana rebelde para ficar com a esposa. Talvez fosse por isso que a adolescente fosse tão mal educada! Se tivesse um filho, ela faria diferente. Depois da depressão, Bete descobriu que trair o marido aliviava a sua dor. Tinha felicidade quando via aqueles rostos cheios de desejo enquanto ela subia e descia, subia e descia. Largou o emprego. Passava as tardes na academia tentando formar aquele corpo tão cobiçado. Às vezes calculava quanto tempo demoraria pra morrer se seu corpo caísse da sacada. Depois de dormir com homens na cama do seu marido ela sentia um pouco de nojo de si mesma, sentia inveja das mulheres traídas em casa com as crianças. Por que ela, justo ela, não pôde ser uma mulher como as outras? Nascer, ser oprimida, sofrer com o machismo, casar, ter filhos, ser infeliz. Por que? Deixou de ter filhos pra prosseguir na carreira profissional, pra ter sucesso. E agora tinha o quê?
Às vezes ela se imaginava contando pro marido toda a verdade. Ele iria bater no seu rosto, te dar uma surra, deixar toda marcada. Ou talvez matasse a ela e ao amante. Talvez.
Tinha uma boa alimentação e cuidava bem do corpo como qualquer mulher muito vaidosa. Mas corria de hospitais. Quando a gripe forte veio ela não teve como escapar, exames aqui, exames ali. E de repente o resultado. Outro câncer, no seio esquerdo. Não chorou, não fez alarde, ficou parada olhando pra calça do médico. Foi pra casa pensativa. Entrou pela porta da cozinha e esperou o marido chegar, não tomou água e nem tirou a bolsa dos ombros. Quando ouviu os passos e sentiu a fechadura na porta se preparou, antes que o marido colocasse os dois pés dentro de casa ela contou tudo. Já dormi com seu irmão, com o vizinho do lado, com seu chefe, com o jardineiro, com o mecânico. Já te traí tanto que não lembro. O marido continuou parado. De repente suspirou e começou a caminhar firme. Amor, vamos pedir uma pizza? Ao ouvir a voz do marido assim, tão morna, Bete teve vontade de matá-lo. Não teve filhos, não teve amor, não teria mais seio. Será que ainda poderia ser chamada de mulher?
Vamos, o número está na geladeira, disse enquanto se levantava.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Lucia
Lucia descobriu, enquanto seu marido conversava com a vizinha, que os dois tinham um caso. Não precisava de provas. O olhar da vizinha Bete magrela dizia tudo. Ela já teve o corpo bonito assim, mas depois dos filhos, da depressão, da idade via os peitos murcharem e o corpo mudar, não parecia seu corpo. O marido mudou também. Aquele cabelo grisalho e as novas roupas chiques que ele conseguiu depois do novo emprego. As mãos de Lucia sujas, descascar batatas deixava a mão meio grossa... Ainda tinha a sala pra limpar, o banheiro pra lavar. E o marido de Lucia que a acusava de ser mole. Ah, Lucia, você, justo você!, uma mulher com tanto talento! Cair nessa vidinha. Lavou as mãos e continuou observando os dois pela janela. Não, talvez não fosse um caso, talvez ainda estivessem pensando nisso, pensando em traí-la. Como ele pode? Depois de ela ter perdido a sua juventude com um homem como ele! Depois de ela ter dado a luz a seus filhos! Uma mulher dez anos mais jovem... Quanto constrangimento...
Limpou as mãos roliças na toalha e sentiu uma súbita falta de ar. A perna parecia muito frouxa, a vista parecia muito embaçada. Lucia pensou que poderia ser ciúme, poderia ser a raiva do marido traidor, poderia ser o desejo de vingança. Mas devia ser só mais uma dessas crises da idade. Ah, Lucia, a idade é tão severa. Sentou-se e ficou pensativa. A sala, o banheiro, o arroz queimando. Levantar e ir embora, abandonar o marido, as crianças, aquela vida de merda de dona de casa mal amada e mal comida. Chorou sozinha, não pela traição, não pelo medo das doenças, mas por pena dela mesma... Quando foi que deixou de amar a si mesma? Foi quando fingiu não perceber as traições? Foi quando disse "sim"? Foi depois do primeiro filho? Ficar triste, chorar, rebater, brigar, quebrar a casa, matar o marido, fazer o almoço, emagrecer, cuidar dos filhos, viver sua vida, ver a roupa do balé, costura meias, ser amável, ser honesta...
Foi pra sala e pegou a vassoura. Mas aquele chão não era o de sempre, parecia mais perto... Saiu pela porta da frente e pensou em tudo, pensou em correr. Mas não teve forças. Caiu na grama e deixou as formigas subirem em seu corpo. Mas aí lembrou:
Nossa! O arroz!
Limpou as mãos roliças na toalha e sentiu uma súbita falta de ar. A perna parecia muito frouxa, a vista parecia muito embaçada. Lucia pensou que poderia ser ciúme, poderia ser a raiva do marido traidor, poderia ser o desejo de vingança. Mas devia ser só mais uma dessas crises da idade. Ah, Lucia, a idade é tão severa. Sentou-se e ficou pensativa. A sala, o banheiro, o arroz queimando. Levantar e ir embora, abandonar o marido, as crianças, aquela vida de merda de dona de casa mal amada e mal comida. Chorou sozinha, não pela traição, não pelo medo das doenças, mas por pena dela mesma... Quando foi que deixou de amar a si mesma? Foi quando fingiu não perceber as traições? Foi quando disse "sim"? Foi depois do primeiro filho? Ficar triste, chorar, rebater, brigar, quebrar a casa, matar o marido, fazer o almoço, emagrecer, cuidar dos filhos, viver sua vida, ver a roupa do balé, costura meias, ser amável, ser honesta...
Foi pra sala e pegou a vassoura. Mas aquele chão não era o de sempre, parecia mais perto... Saiu pela porta da frente e pensou em tudo, pensou em correr. Mas não teve forças. Caiu na grama e deixou as formigas subirem em seu corpo. Mas aí lembrou:
Nossa! O arroz!
quinta-feira, 11 de julho de 2013
tree
ah, aquela fossa de novo... eu não devia fazer disso aqui um diário, mas qual a saída? todo mundo muito cansado das minhas velhas merdas. é triste quando você afasta todo mundo.
tenho vergonha disso. vergonha de tudo que eu fiz pra me tornar quem eu sou hoje. se eu pudesse eu apagava tudo.
hoje eu passei o dia todo olhando o céu pela minha janela. aquela árvore seca, morta, a minha melhor amiga. eu podia dar um nome pra ela, eu podia achar que ela me entende mais do que eu mesma e é por isso que eu já não sei quem eu sou mais. eu sou o que essa árvore vê em mim. se um dia ela cair, eu caio também. parece que a gente vai morrendo na mesma velocidade.
toda vez que eu ouço aquelas ofensas eu sinto minha pele pegando fogo. é brasa. e a cicatriz deve ficar pra sempre. a vida é de merda mesmo.
quando eu for embora eu vou sentir falta da árvore. antes tinha uma sombra enorme, agora você só tem seus galhos secos pra oferecer por aí. e eu, só meus sentimentos ruins pra escrever aqui.
os bons eu guardo com força. se eu perder estes, eu me perco também.
abdiquei do meu sonho, não por altruísmo, mas por preguiça, por ciúme. esse fim de ano vai ser pior do que o outro. eu queria nunca mais ver um rosto conhecido de novo. a saudade faz lembrar as coisas boas.
mas o tempo passa, não passa? e daqui há alguns anos eu esqueço o quanto eu te amei um dia.
já esqueci de outros amores antes e nem nisso você vai ser especial. não vai ser a primeira que eu descartei.
quem é descartado sempre descarta no final. essa são as regras do jogo.
tenho vergonha disso. vergonha de tudo que eu fiz pra me tornar quem eu sou hoje. se eu pudesse eu apagava tudo.
hoje eu passei o dia todo olhando o céu pela minha janela. aquela árvore seca, morta, a minha melhor amiga. eu podia dar um nome pra ela, eu podia achar que ela me entende mais do que eu mesma e é por isso que eu já não sei quem eu sou mais. eu sou o que essa árvore vê em mim. se um dia ela cair, eu caio também. parece que a gente vai morrendo na mesma velocidade.
toda vez que eu ouço aquelas ofensas eu sinto minha pele pegando fogo. é brasa. e a cicatriz deve ficar pra sempre. a vida é de merda mesmo.
quando eu for embora eu vou sentir falta da árvore. antes tinha uma sombra enorme, agora você só tem seus galhos secos pra oferecer por aí. e eu, só meus sentimentos ruins pra escrever aqui.
os bons eu guardo com força. se eu perder estes, eu me perco também.
abdiquei do meu sonho, não por altruísmo, mas por preguiça, por ciúme. esse fim de ano vai ser pior do que o outro. eu queria nunca mais ver um rosto conhecido de novo. a saudade faz lembrar as coisas boas.
mas o tempo passa, não passa? e daqui há alguns anos eu esqueço o quanto eu te amei um dia.
já esqueci de outros amores antes e nem nisso você vai ser especial. não vai ser a primeira que eu descartei.
quem é descartado sempre descarta no final. essa são as regras do jogo.
| i can see my best friend from my window |
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Aqueles dias
Aqueles dias que eu sorria até pros panfleteiros e distribuía elogios por aí.
Teve gente que não acreditava que eu pudesse mudar tanto, mas a gente sempre dá um jeitinho de ir mais a fundo e revirar no fundo da alma pra ver o que descobre de bom.
E com todas aquelas amizades fofas e sorrisos e dias de sol eu passava a vida olhando tudo, crendo em tudo e sentindo tudo. Tem sempre aquilo, aquele, aquela que você volta a encontrar e te dá um aperto no peito. Eu queria aperto na cintura. Aperto de mão.
A vida pode ser bonita se a gente pinta tudo de azul e pára de assistir jornal.
Virgens Suicidas, Quando duas mulheres pecam, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, Réquiem para um sonho...
Vamos deixar o sofrimento pra ficção das tardes.
A minha gatinha gorda e preguiçosa, eu mais gordinha e preguiçosa e rindo. O bolo queimando e eu nem aí.
Entender que a gente anda conforme o passo. Deixar os conflitos pra trás.
Deixar as velhas pessoas pra trás. Acreditar em Deus.
A vida só é boa quando a gente ignora o que tem de ruim.
Mas a questão é que isso não pode durar pra sempre.
Teve gente que não acreditava que eu pudesse mudar tanto, mas a gente sempre dá um jeitinho de ir mais a fundo e revirar no fundo da alma pra ver o que descobre de bom.
E com todas aquelas amizades fofas e sorrisos e dias de sol eu passava a vida olhando tudo, crendo em tudo e sentindo tudo. Tem sempre aquilo, aquele, aquela que você volta a encontrar e te dá um aperto no peito. Eu queria aperto na cintura. Aperto de mão.
A vida pode ser bonita se a gente pinta tudo de azul e pára de assistir jornal.
Virgens Suicidas, Quando duas mulheres pecam, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, Réquiem para um sonho...
Vamos deixar o sofrimento pra ficção das tardes.
A minha gatinha gorda e preguiçosa, eu mais gordinha e preguiçosa e rindo. O bolo queimando e eu nem aí.
Entender que a gente anda conforme o passo. Deixar os conflitos pra trás.
Deixar as velhas pessoas pra trás. Acreditar em Deus.
A vida só é boa quando a gente ignora o que tem de ruim.
Mas a questão é que isso não pode durar pra sempre.
sábado, 9 de março de 2013
Hoje
Hoje as estrelas sorriram pra mim quando eu fechei os olhos e pedi lá do fundo, bem do fundo.
Da minha janela eu vejo tijolos e chão grosso. Eu vejo crianças barrigudas e mulheres gordas.
Essa tarde um quê de esperança entrou debaixo da minha porta. E eu pulei e pulei de medo.
Mas acho que no final tudo se ajeita e a gente deixa de perder tempo.
Aquela moça que trabalha na máquina de xerox sorriu pra mim hoje e me perguntou se eu tinha visto o céu e tão lindo que ele tava.
Na vida a gente sempre tem moças do xerox pra lembrar que o céu tá bonito
e sempre tem uma janela pra ver o chão grosso e a criança barriguda.
Da minha janela eu vejo tijolos e chão grosso. Eu vejo crianças barrigudas e mulheres gordas.
Essa tarde um quê de esperança entrou debaixo da minha porta. E eu pulei e pulei de medo.
Mas acho que no final tudo se ajeita e a gente deixa de perder tempo.
Aquela moça que trabalha na máquina de xerox sorriu pra mim hoje e me perguntou se eu tinha visto o céu e tão lindo que ele tava.
Na vida a gente sempre tem moças do xerox pra lembrar que o céu tá bonito
e sempre tem uma janela pra ver o chão grosso e a criança barriguda.
quinta-feira, 7 de março de 2013
poderia
Você poderia falar da guerra.
Poderia falar das mães que perderam os filhos.
Poderia falar da Yoni Sanchez, do Hugo Chavez, do Chorão.
Do facebook, da morte súbita, dos coliformes fecais na água de poço.
Do governo brasileiro, do governo americano.
De Goethe, de Pessoa, dos Anjos.
Do cachorro que queria chegar do outro da rua,
da tangente transversal entre duas retas paralelas num mesmo plano,
da escassez de amor, de ódio.
Dos rompimentos, dos dias banais, das cruzadas.
Do tempo, das provas, dos amores.
Da padaria da esquina que não tem iogurte,
de gente que bebe cachaça, de gente que usa crack.
Das pessoas que você ama, das que você odeia,
das que você não sabe que existem.
Mas você só sabe falar de você mesmo.
Porque acha que a sua dor é a maior dor
do mundo.
Mas não é.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
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