Eu não gosto de lixeira cheia, não gosto de piadas estúpidas, de palavras não filtradas. Não gosto de não ter sorte, de não saber jogar xadrez. Não gosto de sinceridade forçada, de café fraco, de meias sem furo.
Não gosto de quem deixa refrigerante fora da geladeira, de quem ri muito, de quem ri alto, de quem fala demais, de quem finge que me atura, de quem me atura. Não gosto de televisão, de futebol, de música baixa. Não gosto de meninas, de meninos. Não gosto de chocolate, de banda que os integrantes são vivos, não gosto de xícaras vazias, de sorrisos gratuitos. De gente que não mente, de gente que mente.
Eu não gosto de gente.
O nome? Lola.
Não gostou? Nem eu.
sábado, 18 de setembro de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Café
A mão está fria. Segurando o café com os dedos trêmulos. O cigarro está acabando. A fumaça vai direto para o cabelo. A tosse é seca, a roupa é suja. Suja de vodka. Cheiro de álcool, alguém chamando no portão. Quem? Era o gato, o gato com os olhos amarelos e o pêlo negro.
O nariz sangrou, a ferrugem não enjoava. O sangue chegou aos lábios. Nem ralo, nem muito vermelho. O espelho partido. Uma rachadura enorme. Nenhum vestígio de lágrimas. Nenhum vestígio de dúvidas, tristezas, nada. O céu estava adivinhando a maldição.
Cadê?
Deve estar na bolsa, com os cigarros. Todos os cigarros intactos. Não, não está na bolsa. Deve estar debaixo do tapete, com as conversas sussurradas. As conversas sobre a mudança, a separação, a doença. Não, não está debaixo do tapete. Procure mais um pouco... Não, está nem aqui, nem ali. Deve ter se mudado para um texto que faça sentido. Ou para casa de alguém que tenha sentimentos.
O nariz sangrou, a ferrugem não enjoava. O sangue chegou aos lábios. Nem ralo, nem muito vermelho. O espelho partido. Uma rachadura enorme. Nenhum vestígio de lágrimas. Nenhum vestígio de dúvidas, tristezas, nada. O céu estava adivinhando a maldição.
Cadê?
Deve estar na bolsa, com os cigarros. Todos os cigarros intactos. Não, não está na bolsa. Deve estar debaixo do tapete, com as conversas sussurradas. As conversas sobre a mudança, a separação, a doença. Não, não está debaixo do tapete. Procure mais um pouco... Não, está nem aqui, nem ali. Deve ter se mudado para um texto que faça sentido. Ou para casa de alguém que tenha sentimentos.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Troco
Vou pisar em você. Sujar sua carne podre e te misturar a lama.
Vou revirar suas entranhas, despedaçar seu coração. Rir dos seus cacos.
Difamar seu nome. Acabar com a sua alegria.
Vou cuspir na sua cara, sujar seus cabelos, rasgar sua pele.
Quebrar sua cabeça. Te encher de ódio. Vou te fazer esperar.
Destruir seu amor. Queimar seu cérebro. Triturar suas memórias.
Vou te fazer sofrer. Vou pegar o pão amassado e te forçar a engolir.
Você vai ter tudo de volta.
Vou revirar suas entranhas, despedaçar seu coração. Rir dos seus cacos.
Difamar seu nome. Acabar com a sua alegria.
Vou cuspir na sua cara, sujar seus cabelos, rasgar sua pele.
Quebrar sua cabeça. Te encher de ódio. Vou te fazer esperar.
Destruir seu amor. Queimar seu cérebro. Triturar suas memórias.
Vou te fazer sofrer. Vou pegar o pão amassado e te forçar a engolir.
Você vai ter tudo de volta.
sábado, 24 de abril de 2010
15
Quando abriu o olho viu só sua mãe acenando. "Já está na hora." Era sábado, mas tinha curso. E quando tomou banho, foi normal. Quando se arrumou, foi normal. E foi pro curso. E assistiu a aula e encontrou as amigas e teve esperança, mas ninguém falou nada. Ela se desanimou. Sorriu. Fingiu. Mentiu. Tudo como sempre. E foi embora. A chuva vinha vindo, molhando seu cabelo, sua roupa, sua alma, arrastando os vestígios de quem espera algo. Ela se escondeu, foi pro shopping e ficou sentada, esperando. Nada. Tentou mais uma vez. Ligou de novo. Nada. E balançou as pernas. "Eles não são obrigados a lembrar" Sacudiu as mãos, esperando, esperando... Nada. Foi embora. Ficou o tempo todo olhando pra janela do ônibus, pras gotas de chuva. Parou de chover e ela só reparou na descida do ônibus. Chegou, entrou no orkut. Nada. Nenhum recado. Deitou na cama, fechou os olhos e chorou baixinho. Nem é importante. São só seus 15 anos.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Minutos
Eu gosto de ficar olhando os carros que vem na direção contrária. Meus olhos começam a lacrimejar. A ponte cada vez mais iluminada me deixa extasiada. Aquelas luzes parecem comprimidos pra felicidade. Me sinto quase feliz. Depois de respirar com força, sinto o ar entrando e quase me sinto viva outra vez. Meus dedos se machucam nos muros das casas. O sangue é um pouco ralo e posso sentir o cheiro de culpa em cada gota. Depois de correr o dia todo, sempre atrasada, perdendo a hora por distração, tenho meus minutos de paz e faço o maior esforço pra não voltar tão cedo pra casa. Eu fico parada olhando para o rio e o meu tênis sujo fica se sacudindo de um lado para o outro. Acho que meus pés ficaram dormentes, mas estou tão livre do cansaço que continuo caminhando lentamente, tentando aproveitar cada minuto. Dentro de mim uma chama pequena ainda está acesa e eu fico tentando mantê-la ali por mais um tempo. Lá no fundo dos meus sapatos começo a sentir um frio conhecido subindo as minhas pernas. Desacelero mais os passos. Em vão. Olho para trás, perdida. Mas a estrada fria me puxa, o asfalto enfia agulhas no meu coração. E meus olhos perdem o brilho, sem ter certeza, continuo sendo arrastada. E deixo pra trás os minutos só meus. O que me consola é saber que amanhã vou ter tudo de novo.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Suspiro
A janela. Os carros. As buzinas.
As unhas vermelhas na mesa.
As perguntas. O silêncio.
As unhas vermelhas na mesa.
O silêncio em forma de inseto entrando pela janela.
Minha indiferença. Sua voz entrecortada. Meu pescoço quebrado.
Por que levantar a cabeça ficou tão dificil?
As unhas vermelhas batendo impacientes na mesa.
Silêncio pra digerir as palavras que faziam um bolo na garganta. Você falando de novo.
O bolo crescendo.
Sua pergunta. Meu escárnio. Sua dor. Minha derrota.
A cadeira rangendo contra o chão. Os passos. A porta batendo.
As unhas vermelhas furando a pele.
Os gritos de dor. Os cabelos revoltos.
As unhas eram vermelhas ou seria sangue?
A vista turva. Água. Muita água. De onde saiu tudo isso? Pés descalços no corredor.
A porta do banheiro. A luz acesa. O remédio na pia. Passos arrastados. A vista escurecendo.
As unhas vermelhas em direção ao remédio.
As unhas vermelhas caindo. O chão cada vez mais perto. Os olhos se fechando. Um último suspiro débil.
As unhas vermelhas na mesa.
As perguntas. O silêncio.
As unhas vermelhas na mesa.
O silêncio em forma de inseto entrando pela janela.
Minha indiferença. Sua voz entrecortada. Meu pescoço quebrado.
Por que levantar a cabeça ficou tão dificil?
As unhas vermelhas batendo impacientes na mesa.
Silêncio pra digerir as palavras que faziam um bolo na garganta. Você falando de novo.
O bolo crescendo.
Sua pergunta. Meu escárnio. Sua dor. Minha derrota.
A cadeira rangendo contra o chão. Os passos. A porta batendo.
As unhas vermelhas furando a pele.
Os gritos de dor. Os cabelos revoltos.
As unhas eram vermelhas ou seria sangue?
A vista turva. Água. Muita água. De onde saiu tudo isso? Pés descalços no corredor.
A porta do banheiro. A luz acesa. O remédio na pia. Passos arrastados. A vista escurecendo.
As unhas vermelhas em direção ao remédio.
As unhas vermelhas caindo. O chão cada vez mais perto. Os olhos se fechando. Um último suspiro débil.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Eu prometo
Eu prometo que essa é a última vez que vou entrar no seu orkut pra ver os recados que ela te mandou. Prometo que nunca mais vou perguntar por você para meu primo no msn. Prometo que não vou mais chorar ouvindo aquelas músicas idiotas. Prometo que vou estudar três horas todo dia. Prometo que vou parar de roer unha. Prometo que nunca mais vou ficar olhando aqueles caras idiotas e bonitos. Prometo que vou parar de chorar porque você não sofre por mim. Prometo que vou ficar menos tempo no msn esperando você ficar on-line só pra sentir meu coração acelerar. Prometo que vou ignorar aqueles gatinhos bonitinhos da loja de ração da esquina. Prometo que não vou mais chorar assistindo filmes. Prometo que vou sair do teatro pra ter mais tempo pra coisas úteis. Prometo que nunca mais vou me sentir mal quando aquelas meninas populares me esnobarem. Prometo que vou começar a gostar de trigonometria e física.
Eu só não prometo que vou parar de mentir.
Eu só não prometo que vou parar de mentir.
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