Hoje as estrelas sorriram pra mim quando eu fechei os olhos e pedi lá do fundo, bem do fundo.
Da minha janela eu vejo tijolos e chão grosso. Eu vejo crianças barrigudas e mulheres gordas.
Essa tarde um quê de esperança entrou debaixo da minha porta. E eu pulei e pulei de medo.
Mas acho que no final tudo se ajeita e a gente deixa de perder tempo.
Aquela moça que trabalha na máquina de xerox sorriu pra mim hoje e me perguntou se eu tinha visto o céu e tão lindo que ele tava.
Na vida a gente sempre tem moças do xerox pra lembrar que o céu tá bonito
e sempre tem uma janela pra ver o chão grosso e a criança barriguda.
sábado, 9 de março de 2013
quinta-feira, 7 de março de 2013
poderia
Você poderia falar da guerra.
Poderia falar das mães que perderam os filhos.
Poderia falar da Yoni Sanchez, do Hugo Chavez, do Chorão.
Do facebook, da morte súbita, dos coliformes fecais na água de poço.
Do governo brasileiro, do governo americano.
De Goethe, de Pessoa, dos Anjos.
Do cachorro que queria chegar do outro da rua,
da tangente transversal entre duas retas paralelas num mesmo plano,
da escassez de amor, de ódio.
Dos rompimentos, dos dias banais, das cruzadas.
Do tempo, das provas, dos amores.
Da padaria da esquina que não tem iogurte,
de gente que bebe cachaça, de gente que usa crack.
Das pessoas que você ama, das que você odeia,
das que você não sabe que existem.
Mas você só sabe falar de você mesmo.
Porque acha que a sua dor é a maior dor
do mundo.
Mas não é.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Se você quer raspar a cabeça...
você tem que saber se olhar no espelho e não se arrepender. Se você quer raspar a cabeça, você tem que desfazer as unhas e usar uma roupa condizente que não condiga. Mesmo sem saber se essa palavra, condiga, existe. Você tem que entender que raspar a cabeça é definitivo e que seu cabelo nunca mais será o mesmo, nem os olhares serão os mesmos. Se você quer raspar a cabeça você tem que saber gritar alto e pular alto e fazer tudo do alto pra não se envergonhar de nada que possa te causar desconforto.
Se você quer raspar a cabeça você tem que se livrar de todas as acusações de ingratidão, de incesto, de sem-vergonhice. Mesmo sem saber se vergonhice é com C. Se você quer raspar a cabeça você tem que entender que não tem como se preocupar com ortografia ou telefone ou qualquer outra coisa. Se você quer raspar a cabeça você tem que entender que você vai ser outra com a mesma face, mas sem cabelo.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
só que não
Eu planejei tudo. Construí na cabeça, montei e desmontei várias vezes vários planos. Mas não deu certo. E agora é a hora que eu choro e faço birra e finjo que tenho o maior umbigo do mundo. Só que hoje não. Hoje eu sou adulta. E gente adulta não chora. Nem foge das responsabilidades. Gente adulta finge que está bem e que não importa o que aconteça ano que vem tem de novo.
Por mais que você queira morrer. E gritar. E colocar a culpa nos outros. Hoje eu vou ser adulta pela primeira vez. Eu vou respirar fundo quando der vontade de chorar. Eu vou segurar os comentários maldosos. Eu fracassei e não deu. Mas não dar faz parte. E se eu fracassei eu tenho que me esforçar mais. E pronto. E tá tudo bem. Mesmo que não esteja.
Foda-se.
Por mais que você queira morrer. E gritar. E colocar a culpa nos outros. Hoje eu vou ser adulta pela primeira vez. Eu vou respirar fundo quando der vontade de chorar. Eu vou segurar os comentários maldosos. Eu fracassei e não deu. Mas não dar faz parte. E se eu fracassei eu tenho que me esforçar mais. E pronto. E tá tudo bem. Mesmo que não esteja.
Foda-se.
sábado, 11 de agosto de 2012
Que os Anjos falem por mim
Apóstrofe à carne
Augusto do Anjos
"Quando eu pego nas carnes do meu rosto
Pressinto o fim da orgânica batalha:
- Olhos que o húmus necrófago estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...
E o Homem - negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha.
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!
Carne, feixe de mônadas bastardas.
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos.
Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!"
Augusto do Anjos
"Quando eu pego nas carnes do meu rosto
Pressinto o fim da orgânica batalha:
- Olhos que o húmus necrófago estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...
E o Homem - negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha.
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!
Carne, feixe de mônadas bastardas.
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos.
Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!"
terça-feira, 31 de julho de 2012
Asa quebrada
Aquele pé maltrapilho. Aquela vontade de cama. Aquele desejo de tempo.Esses dias eu imaginei que se talvez eu desejasse com muita força, muita vontade, talvez eu conseguisse. Não que a questão seja só desejar, mas talvez se eu tivesse pensamento positivo a minha energia melhorasse. Sou dessas que acreditam em energia positiva, acreditar em energia positiva remete à acreditar na força do pensamento, eu acho. Eu vivo dizendo que não vou mais aguentar, eu vivo dizendo que vou me matar no meio do caminho, que vou morrer acidentada, adoentada, assassinada. Às vezes eu até me imaginava com um maluco agarrado ao meu pescoço, eu não ia gritar, nem reclamar de nada, ia ficar paradinha esperando o "final do serviço". Ou talvez eu berrasse, batesse, fugisse, me agarrasse à vida com força.
É que eu não tenho me agarrado com força a nada ultimamente, desistir no meio do caminho tem sido o dilema. É que são tantas pedras no meio do caminho que algumas são maiores do que eu. Ou maiores do que a minha vontade. Não vou dizer que faltam braços pra me ajudar a atravessar, não vou dizer que não tenho forças. Simplesmente porque estaria mentindo. Eu queria ter tudo aquilo que os vencedores têm, eu queria ter tudo aquilo que as pessoas legais têm. Mas não tem nada lá no fundo de mim, só desespero. Eu tenho o dilema de que se você está desesperado e sem forças e sem rumo, o melhor é sentar e chorar. Você senta, chora, faz birra, cara feia. Espera ajuda. Mas isso quando não se tem mais saída, quando não se tem mais aonde ir. E há pessoas pra ajudar. Sempre há. Não é? Mesmo que a ajuda não ajude. É que eu sou infantil. Não sei me virar sozinha, sou do tipo que fui protegida porque na rua tem estuprador e andar descalça mata. Mas aí de repente eu comecei a andar na rua com os estupradores a solta e andar descalça e não morrer. Pois é. Ando me perguntando que se eu pisar numa poça eu vou morrer com o xixi de rato que tem lá. Todo mundo sabe que poças têm xixi de rato.
Mas por outro lado eu fui do tipo que passou uma boa parte sozinha. Todo mundo falava baixinho, uma chorava num canto, o outro batia as portas. E todo mundo me chamava de "coitadinha". Talvez sejam essas lembranças que me afetem tanto. Antigamente eu não racionalizava muito isso, eu não tentava entender nada. Mas agora que ando racionalizando e entendo, ou interpreto tudo a meu favor, eu percebo que só houve um período em que tudo foi certo, um período em que havia tanto xixi de rato, estupradores e proibição de andar descalça. Porque depois ninguém via.
Eu poderia estar surpresa com minha passividade, permissividade, diante da compreensão de tudo isso. Mas eu sempre fui passiva, permissiva, não sei se por preguiça de levantar a voz ou por medo. Acho que por medo. Eu tenho medo de tudo que voa, tudo, passarinho, borboleta, gente livre. Porque eu tenho as asas quebradas. É por isso que não tenho vontade de pular as pedras, de querer com vontade, porque as minhas asas já estavam quebradas antes de eu nascer. Eu poderia até atravessar as pedras, eu poderia até desejar com muita força, eu poderia até conseguir. Mas eu tenho certeza que isso não leva a nada, eu não vejo nada além de hoje. Eu imagino, eu monto, mas não vejo sentido. Se você não vê não tem por que tentar. Não é?
É que eu não tenho me agarrado com força a nada ultimamente, desistir no meio do caminho tem sido o dilema. É que são tantas pedras no meio do caminho que algumas são maiores do que eu. Ou maiores do que a minha vontade. Não vou dizer que faltam braços pra me ajudar a atravessar, não vou dizer que não tenho forças. Simplesmente porque estaria mentindo. Eu queria ter tudo aquilo que os vencedores têm, eu queria ter tudo aquilo que as pessoas legais têm. Mas não tem nada lá no fundo de mim, só desespero. Eu tenho o dilema de que se você está desesperado e sem forças e sem rumo, o melhor é sentar e chorar. Você senta, chora, faz birra, cara feia. Espera ajuda. Mas isso quando não se tem mais saída, quando não se tem mais aonde ir. E há pessoas pra ajudar. Sempre há. Não é? Mesmo que a ajuda não ajude. É que eu sou infantil. Não sei me virar sozinha, sou do tipo que fui protegida porque na rua tem estuprador e andar descalça mata. Mas aí de repente eu comecei a andar na rua com os estupradores a solta e andar descalça e não morrer. Pois é. Ando me perguntando que se eu pisar numa poça eu vou morrer com o xixi de rato que tem lá. Todo mundo sabe que poças têm xixi de rato.
Mas por outro lado eu fui do tipo que passou uma boa parte sozinha. Todo mundo falava baixinho, uma chorava num canto, o outro batia as portas. E todo mundo me chamava de "coitadinha". Talvez sejam essas lembranças que me afetem tanto. Antigamente eu não racionalizava muito isso, eu não tentava entender nada. Mas agora que ando racionalizando e entendo, ou interpreto tudo a meu favor, eu percebo que só houve um período em que tudo foi certo, um período em que havia tanto xixi de rato, estupradores e proibição de andar descalça. Porque depois ninguém via.
Eu poderia estar surpresa com minha passividade, permissividade, diante da compreensão de tudo isso. Mas eu sempre fui passiva, permissiva, não sei se por preguiça de levantar a voz ou por medo. Acho que por medo. Eu tenho medo de tudo que voa, tudo, passarinho, borboleta, gente livre. Porque eu tenho as asas quebradas. É por isso que não tenho vontade de pular as pedras, de querer com vontade, porque as minhas asas já estavam quebradas antes de eu nascer. Eu poderia até atravessar as pedras, eu poderia até desejar com muita força, eu poderia até conseguir. Mas eu tenho certeza que isso não leva a nada, eu não vejo nada além de hoje. Eu imagino, eu monto, mas não vejo sentido. Se você não vê não tem por que tentar. Não é?
Assinar:
Postagens (Atom)