quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fênix

O problema, e talvez seja essa a questão, é seu. Mas não é culpa sua. É que está quente e você quer dormir e tem o cansaço e tem o estresse...
Mas é que aí você prefere morrer a abrir apostila.
Oh, Senhor, me mate agora, porque esse mundo que espera algo de mim não me merece.
E se eu não quisesse fazer nada? E se eu preferisse viver por aí? Essas pré-obrigações já me sufocam, as pessoas me sufocam, não é (só) o choro, mas as pessoas me sufocam. As pessoas que me matam, que me esfacelam várias vezes ao dia para eu renascer das cinzas e morrer de novo. Hoje eu estava pensando que estou na turma errada, que está tudo errado. Quem sai e se diverte e tem vida e bebe e faz mais amizades é mais feliz do que você que lê e assiste Cine Conhecimento. Você que tenta ouvir mais e falar menos nunca é levada em consideração. Cadê o nerdpower agora?
E seus pais que te julgam, te esmagam e tentam te forçar a ficar na linha que para você é torta. Você que já está na linha há anos e não consegue mais tomar nenhuma atitude que não condiga com ela.
Não é só a questão do olhar, as pessoas perguntam, exigem. Mas e se eu não quiser nada? Essa questão de ser levada pela correnteza por um caminho que você não escolheu seguir, que foi escolhido quando você nasceu. Eu não quero mais, não é para mim, desculpe. Se eu tivesse dito isso antes, se eu tivesse desistido antes, talvez ainda houvesse tempo de procurar saber, de ser menos infeliz e parcialmente bem-amada.
É que eu preciso de uma mão, eu preciso de apoio, eu preciso. Por favor, sem perguntas e justificativas, é que hoje, excepcionalmente hoje, eu preciso me debulhar em lágrimas porque eu não agüento mais andar por aí como se tudo fosse perfeito e não estivesse preocupada.
Por que? Eu, que só tenho 16 anos mal vividos, tenho que decidir agora? É que só quero sair, só quero amar. Será que ninguém leva em consideração meus sentimentos e hormônios?
“Mas você tem que passar por isso, é assim com todo mundo.”
É, é assim com todo mundo. E eu pergunto:
“Todo Mundo, como você agüenta? Porque eu já estou cansada e sem uma Mão não posso suportar mais.”

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

#1

Primeiro olhou pra sala. Tudo no lugar, como sempre. Depois olhou o relógio. Gostava de controlar as horas. Tenho exatamente 30 minutos antes da novela. Foi fazer café. O cheiro inundando a cozinha deu mais prazer do que a bebida em si. O vapor insinuante que subia da xícara a lembrou o filho da manicure.Os mesmos movimentos sedutores. Tão bonito... Tomou um gole para esquecer os pensamentos libidinosos que começavam a escalar seu corpo. O café queimou a língua e ela não fez nenhuma exclamação. Olhou o reflexo do seu corpo no armário e caminhou novamente para a sala. Tinha perdido o horário da novela. Nunca perdera o horário da novela. Ligou a televisão justo no momento em que o mocinho falava com aquele sotaque nordestino que a fazia abrir as pernas. Igual o filho da manicure. Sérgio, era esse o nome dele. Fechou os olhos e imaginou o filho da manicure dizendo que a defenderia, amaria, penetraria... Tomou mais um gole de café e cruzou as pernas. O marido abriu a porta sem nem olhar-lhe a face. Foi direto para o quarto. Ela pensou em ir até lá, tirar a roupa, mostrar a depilação feita. Mas preferiu o televisor a sua frente. Marido complicado, aquele!
—Cadê o João?—Perguntou o marido já de chinelos. 
—Tá na casa da namorada, falou que só volta amanhã.—Respondeu sem desgrudar os olhos da TV, tomou mais um gole de café. O marido entrou no banheiro. Ela podia imaginar o ritual do marido: tirar a roupa, dobrar, colocar no cesto. Tantos anos de casamento! Dois filhos, um já casado, Graças a Deus!, três casas, os carros, as brigas, o silêncio. Ele poderia ficar com as duas casas, com o carro mais caro. E o filho que fosse morar com quem quisesse. Ela ficaria com casa da praia, gostava de lá, era calmo e o vizinho... Ah, aquele vizinho! Que era isso, meu Deus? Precisava recompor-se. Levantou, colocou a xícara na pia e olhou o chão limpo. Tão limpo, tudo tão esterilizado. Olhou o relógio. Tenho 5 minutos pra entrar no banheiro e pegar meu marido antes do fim do banho. Bateu na porta. Corpo em chamas.
—Valdemiro? Valdemiro?— Ele não respondeu. Talvez fingisse não ouvi-la. Ela esperou com a mão na maçaneta, ele a ouvia. Desistiu. Vou beber mais café. Que isso, Vânia? Você nunca foi disso... Ela se sentou na mesa. Ah! Esquecera-se de desligar o televisor, podia ouvir o moço de sotaque nordestino na sala. Paraíba, talvez. Ou Ceará. Lembrava o filho da manicure. O líquido quente descendo pela garganta. Não mais quente que ela. Deixou o café como estava. Foi para o quarto e abriu as gavetas. O marido saía do banheiro. Secava as costas. Ela pegou uma calcinha vermelha. O marido olhou, desinteressado. Ela começou a se despir.
—Como foi na loja hoje?
—O de sempre...
—Você demorou...—Ela observou colocando a peça cor de sangue.
—Muito trabalho.—Falou ele saindo do quarto. Ela terminou de vestir-se. Para quê aquela calcinha? Para quê? Talvez o filho da manicure ligasse. Ela deu o telefone, deu o endereço. Pensou na diferença de idade entre eles. Meninos nessa idade não querem compromisso. Muito menos eu.
—Cadê a janta, Vânia?
—É que hoje sairíamos para jantar.—Respondeu, seca.
—Ah, me desculpe.—Falou ele sem se importar. Ela fitou as costas do marido, o jeito perfeccionista que ele tinha de sempre querer tudo em ordem. Ela começou a tirar o esmalte. Pensou na última vez em que saíram juntos, na última cavalheirice, no último “eu te amo” verdadeiro, não naqueles falsificados que ele pronunciava, mais por agradecimento que por emoção. Pensou no sexo automático, egoísta do marido. Pensou no jeito ranzinza, na ignorância e quis chorar. Não conseguiu, nem se surpreendeu.
—Que foi, Vânia? Vai ficar aí como estátua? Vem ajeitar a comida.
—Meu bem, você quer que eu compre cigarros?—Perguntou ela, desinteressada deixando cair pedaços de esmalte no chão e foi recolocando a roupa e andando em direção a bolsa. Olhou o relógio sobre a parede.
—Não.—Ele respondeu, ignorante.
—Ah, tá. É que eu vou ali na manicure fazer as unhas e só volto amanhã cedo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

#Robert

Você vai ter mania de porta fechada e pescoço. Eu tenho mania de cotovelo e Dolores.
"É um nome que diz muito sem falar quase nada."
Eu vou entender seu defeito de silêncio e você, o meu de solidão.
Seu cheiro de cigarro, sua voz rouca, sua barba na minha bochecha.
E quando as palavras saírem dolorosamente pisadas, eu vou olhar para o chão e sentir o salgado cair por terra.
Não nos ocuparemos com as vãs desculpas, a verdade vai rasgar. Mesmo que de dentro para fora, mesmo que nos destruindo...

"Robert, quem vai morrer primeiro?"

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre estar perdida

Teve vontade de colocar uma bomba na boca. Mastigá-la com todo seu ódio e sentir os fios arranhando as entranhas antes de explodir. Olharia o almoço escorrendo pelas paredes, os pedaços da sua carne fraca e riria da própria má sorte com a voz esganiçada de uma vendida.
Era aquele sentimento de não estar bem consigo mesma, aquela vontade repentina de arrancar os sonhos com as unhas mal feitas. Abrir um buraco com faca de serra. E ver seu corpo se arrastando pelo chão em um geotropismo positivo de dar pena.Tirar a pele com pinça e zombar da sua "arte" burguesa que só olha para o próprio umbigo. Seu intelectualismo duvidoso, seu romance de conto erótico, suas amizades fedorentas. Arrancá-los com um canivete enferrujado e se perguntar o porquê de viver. Ser escalpelada pelos pecados. Provar seu próprio veneno.
Morrer.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Black Swan



Era doce.
E suave. Era como a ponta da alma se arrastando pelo chão, era o corpo agitado que não queria se levantar e tremia, e tremia. E eram os suspiros e a vontade de agarrar tudo com as mãos e espremer entre os dentes aquela carne quente. E rodava entre os túneis com os punhos batendo nas paredes e se pudesse escalá-las... ah! Se pudesse escalá-las! E era um riso virando uivo e um grito se calando. Rasgando o que havia de dentro para fora. A implosão violenta na descoberta do não-ser. Era o ato de se fechar por reflexo, mas se abrindo cada vez mais. Eram os cabelos se agitando e pés querendo sair do chão cada vez mais próximo. As palavras de consolo penetrando mais fundo e as narinas abertas sem sugar ar nenhum.  E as luzes já sumiam nos túneis e os dedos ficaram parados. Então o desespero de se perceber mudado sem nenhum amparo, então a vontade de fugir com os pés acorrentados. A decepção de não poder voar, a revolta pela corrupção e vergonha de si mesmo.O sangue seco, a vontade de deixar tudo em ordem quando nem se sabe mais a noção do tempo, quando não se tem mais freios, muito menos motivação. Vieram as imagens e o querer de agarrar tudo com as unhas fracas, o querer de perfurar e ver o sangue saindo pelos poros, o querer de ter tudo de volta quando tudo em que se sustentara era uma montanha de nada. Veio a certeza de se ter aprendido algo, a vaga lembrança de um sorriso.
Depois, a escuridão, o silêncio.
A solidão. E o nada


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Questão de tempo

Arreganhe a boca e mostre o sorriso amarelo.
Aperte as entranhas com a força do álcool e arregace as mangas sujas.
Deixe que a ideia de embriaguez lhe entorpeça os sentidos e desdenhe da própria miséria.
Você não tem motivos para continuar de pé, se toda a sua dignidade se vendeu.
Você não tem motivos para olhar no espelho, se já vomitou na própria imagem.
Na verdade, você tem muito pouco. E para o nada é só uma questão de tempo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fumaça

E ela só conseguia pensar na xícara perto da cama. A fumaça que saía da boca dele e o gato arranhando a porta. Ela quer café, mas não consegue se mexer direito. Será que ele não percebe que a mata também? Era tão estranho abrir os olhos, ver aquele raio de sol iluminando aquele corpo caído, virado para janela. Aquela expressão nervosa de quem não quer olhar nos olhos. Ela precisava mesmo de café. E tinha aquela música baixa, tocando no fundo do quarto. Era quase uma lembrança melosa da dança. E o cinzeiro tá cheio, não te avisei para não fumar aqui? E aquele seu silêncio que doía... o arrependimento dele cortava os sentidos dela. Mas ela quase pediu perdão quando viu o número de cigarros no cinzeiro. E se sentar foi tão dificil, ela não queria chorar, jura que não. Mas ele ainda ficou soltando fumaça, fumaça. Talvez ela tenha perdido o bom senso no corredor.