quinta-feira, 26 de maio de 2011

Black Swan



Era doce.
E suave. Era como a ponta da alma se arrastando pelo chão, era o corpo agitado que não queria se levantar e tremia, e tremia. E eram os suspiros e a vontade de agarrar tudo com as mãos e espremer entre os dentes aquela carne quente. E rodava entre os túneis com os punhos batendo nas paredes e se pudesse escalá-las... ah! Se pudesse escalá-las! E era um riso virando uivo e um grito se calando. Rasgando o que havia de dentro para fora. A implosão violenta na descoberta do não-ser. Era o ato de se fechar por reflexo, mas se abrindo cada vez mais. Eram os cabelos se agitando e pés querendo sair do chão cada vez mais próximo. As palavras de consolo penetrando mais fundo e as narinas abertas sem sugar ar nenhum.  E as luzes já sumiam nos túneis e os dedos ficaram parados. Então o desespero de se perceber mudado sem nenhum amparo, então a vontade de fugir com os pés acorrentados. A decepção de não poder voar, a revolta pela corrupção e vergonha de si mesmo.O sangue seco, a vontade de deixar tudo em ordem quando nem se sabe mais a noção do tempo, quando não se tem mais freios, muito menos motivação. Vieram as imagens e o querer de agarrar tudo com as unhas fracas, o querer de perfurar e ver o sangue saindo pelos poros, o querer de ter tudo de volta quando tudo em que se sustentara era uma montanha de nada. Veio a certeza de se ter aprendido algo, a vaga lembrança de um sorriso.
Depois, a escuridão, o silêncio.
A solidão. E o nada


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Questão de tempo

Arreganhe a boca e mostre o sorriso amarelo.
Aperte as entranhas com a força do álcool e arregace as mangas sujas.
Deixe que a ideia de embriaguez lhe entorpeça os sentidos e desdenhe da própria miséria.
Você não tem motivos para continuar de pé, se toda a sua dignidade se vendeu.
Você não tem motivos para olhar no espelho, se já vomitou na própria imagem.
Na verdade, você tem muito pouco. E para o nada é só uma questão de tempo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fumaça

E ela só conseguia pensar na xícara perto da cama. A fumaça que saía da boca dele e o gato arranhando a porta. Ela quer café, mas não consegue se mexer direito. Será que ele não percebe que a mata também? Era tão estranho abrir os olhos, ver aquele raio de sol iluminando aquele corpo caído, virado para janela. Aquela expressão nervosa de quem não quer olhar nos olhos. Ela precisava mesmo de café. E tinha aquela música baixa, tocando no fundo do quarto. Era quase uma lembrança melosa da dança. E o cinzeiro tá cheio, não te avisei para não fumar aqui? E aquele seu silêncio que doía... o arrependimento dele cortava os sentidos dela. Mas ela quase pediu perdão quando viu o número de cigarros no cinzeiro. E se sentar foi tão dificil, ela não queria chorar, jura que não. Mas ele ainda ficou soltando fumaça, fumaça. Talvez ela tenha perdido o bom senso no corredor.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Boa

E talvez eu tenha esquecido do quanto eu gosto da minha cama, meu espaço, meu ar, minha vida.
Mas se é por um bom motivo de que vai importar a revolta agora?
Eu vou chegar até lá e sorrir, sorrir, sorrir. Seja uma boa menina.
E aqui dentro eu tenho um quarto que não é meu, um cheiro que não é meu, uma vida que não é minha.
Eu perdi a vergonha a caminho da praça, vendi a felicidade para comprar batatas e o sorriso frio foi ensaiado meticulosamente. Inferno!
"Não repita essa palavra de novo, isso não é coisa de menina decente!"
E olha só aquela saudade subindo as escadas. Eu acho que se pintar a unha de rosa ele vai pensar que mudei. Mas eu mudei, de verdade.
-Ei, não fujo mais de casa e não misturo sorvete com batata frita.
Mas todo mundo mudou. Todo mundo já toma vodka. E todo mundo sai. Menos eu.
Se eu quebrar essa mesa o castigo vai ser muito grande? Eu tenho tanta vontade de sumir, sumir, sumir. Só para não ter o trabalho de encarar tudo de novo. A vida de novo. Como me cansa!
E eu quero ser uma boa menina, menina boa não dá. É vulgar. De vulgar já me basta o short curto. E o batom. E o cabelo solto dessa forma.
"Que decote é esse?"
Por que será que eu não uso isso na minha cidade? É medo? Confessa, vagabunda, fala do medo do nome na praça!
Boa, boa, mas boa para quem? Ah, a resposta já vem! Não vou ser ingrata, ingratidão é uma coisa terrível!
Por que não me faço entender? E se me entenderem o que acontece? Aí perde a graça!
Para com isso! Não pense assim! Sorria, sorria, sorria.
Talvez você tenha talento para a felicidade.
É, talvez.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Pintura

Se eu pudesse pintar meu sonho, eu pintaria uma parede com pequenos sorrisos de nervosismo. Pintaria uma batata frita entediada e pés se balançando. Pintaria um xícara de café disfarçada de paixão, pintaria o rosto dele no meu travesseiro. Pintaria um uniforme e um sorriso de vitória. Pintaria um beijo roubado num cinema com filme de nerd. Pintaria uma decepção do tamanho de uma melância e um hospital com choro alto. Pintaria uma menina pálida de olho caído e uma mão maldosa debaixo do vestido de morango. Pintaria um cabelo bagunçado com fita roxa e um pequeno medo escalando as cortinas. Pintaria uma amizade que foi ralada e uma criancinha barriguda. Pintaria nossa música que nunca existiu e uma esperança que nunca tive. Pintaria o amor que me prometeram e que se perdeu no caminho da verdade. Pintaria cálculos sem solução e uma careca com sorriso de gengiva. Pintaria uma cadelinha caída na estrada com olhar moribundo e uma gatinha vomitando sangue perto de uma adolescente chorosa. Pintaria uma certeza falsa e um sorriso podre. Pintaria o nada e um cotovelo estourando de dor.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Metade

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste

Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim...


Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

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Eu não sei como posso sentir sua falta se eu nem te conheço.