quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Boa

E talvez eu tenha esquecido do quanto eu gosto da minha cama, meu espaço, meu ar, minha vida.
Mas se é por um bom motivo de que vai importar a revolta agora?
Eu vou chegar até lá e sorrir, sorrir, sorrir. Seja uma boa menina.
E aqui dentro eu tenho um quarto que não é meu, um cheiro que não é meu, uma vida que não é minha.
Eu perdi a vergonha a caminho da praça, vendi a felicidade para comprar batatas e o sorriso frio foi ensaiado meticulosamente. Inferno!
"Não repita essa palavra de novo, isso não é coisa de menina decente!"
E olha só aquela saudade subindo as escadas. Eu acho que se pintar a unha de rosa ele vai pensar que mudei. Mas eu mudei, de verdade.
-Ei, não fujo mais de casa e não misturo sorvete com batata frita.
Mas todo mundo mudou. Todo mundo já toma vodka. E todo mundo sai. Menos eu.
Se eu quebrar essa mesa o castigo vai ser muito grande? Eu tenho tanta vontade de sumir, sumir, sumir. Só para não ter o trabalho de encarar tudo de novo. A vida de novo. Como me cansa!
E eu quero ser uma boa menina, menina boa não dá. É vulgar. De vulgar já me basta o short curto. E o batom. E o cabelo solto dessa forma.
"Que decote é esse?"
Por que será que eu não uso isso na minha cidade? É medo? Confessa, vagabunda, fala do medo do nome na praça!
Boa, boa, mas boa para quem? Ah, a resposta já vem! Não vou ser ingrata, ingratidão é uma coisa terrível!
Por que não me faço entender? E se me entenderem o que acontece? Aí perde a graça!
Para com isso! Não pense assim! Sorria, sorria, sorria.
Talvez você tenha talento para a felicidade.
É, talvez.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Pintura

Se eu pudesse pintar meu sonho, eu pintaria uma parede com pequenos sorrisos de nervosismo. Pintaria uma batata frita entediada e pés se balançando. Pintaria um xícara de café disfarçada de paixão, pintaria o rosto dele no meu travesseiro. Pintaria um uniforme e um sorriso de vitória. Pintaria um beijo roubado num cinema com filme de nerd. Pintaria uma decepção do tamanho de uma melância e um hospital com choro alto. Pintaria uma menina pálida de olho caído e uma mão maldosa debaixo do vestido de morango. Pintaria um cabelo bagunçado com fita roxa e um pequeno medo escalando as cortinas. Pintaria uma amizade que foi ralada e uma criancinha barriguda. Pintaria nossa música que nunca existiu e uma esperança que nunca tive. Pintaria o amor que me prometeram e que se perdeu no caminho da verdade. Pintaria cálculos sem solução e uma careca com sorriso de gengiva. Pintaria uma cadelinha caída na estrada com olhar moribundo e uma gatinha vomitando sangue perto de uma adolescente chorosa. Pintaria uma certeza falsa e um sorriso podre. Pintaria o nada e um cotovelo estourando de dor.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Metade

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste

Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim...


Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

-

Eu não sei como posso sentir sua falta se eu nem te conheço.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Vendida

Eu me vendi. VENDIDA. Vou andar com um crachá por aí. E o pior é que a culpa não é deles, que me mandam fazer o "certo", que me mandam ser como eles. Eu sou mesmo a bosta. Só uma vendida para trair seus ideiais! Certo é ser pequena, é não sentir nada, não ser feliz. Tenha família, tenha uma casa, um emprego, morra. E não vou fazer nenhuma diferença, porque vou ser como eles. VEN-DI-DA. Eu tenho pena de mim, porque eu sou covarde. A verdade é que não lutar pelo que você quer é ser covarde, não ser capaz de enfrentar a maré que vem contra você. Eu só me rendi e ver aqueles que continuam lutando é triste. Porque eu sinto pena de mim por não ser como eles. "Estou tão cansada de mim mesma." Eu queria ir embora, fugir (olha meu lado covarde de novo), eu não quero ser eu. Eu tenho sonhos demais pra tão pouca idade, tenho medo demais pra tão pouco coração, tenho poucos anos demais pra tanta decepção. E me sinto tão envergonhada de pensar assim. Não tenho direito de querer ser feliz porque minha felicidade seria a tristeza de alguns. E eu aprendi a fazê-los felizes. Mas eu me destruo. E sem perceber espalho veneno por aí, porque minha tristeza é ácida, acabo ferindo que não tem nada a ver a também. Eu queria poder ir embora, agora mais do que nunca eu tenho vontade de ir. Mas é que eu sou tão covarde pra isso também! Eu não quero ser eu!!! A culpa é de quem? Fico tentando encontrar um culpado, quero ter quem odiar, porque isso de odiar a mim mesma está me destruindo. E o pior é que nem tenho direito de me sentir injustiçada. Injustiça seria não fazer o que me mandam, porque seria ingratidão. Eles me deram tudo, tudo que o dinheiro poderia comprar. Tudo que aquele pouco dinheiro poderia comprar, eles me querem alguém que eu não nasci com vontade de ser. E nem posso reclamar, reclamar de quê? Acho que perdi o direito de sonhar, ou melhor, ganhei o direito de realizar um sonho que não é meu. Não é para isso que a gente nasceu? Eu estou tão sozinha de repente! E esse batimento acelerado não há ninguém que entenda. Eu queria ter pelo menos o direito de chorar, porque não tenho nem o direito de sofrer. Será que alguém me entende? Eu queria ter alguém, não é só para beijar, porque eu nem entendo muito de beijo. Eu só queria ter alguém para chorar, saber que eu vou poder ser infeliz com alguém. Olha só, eu de novo, covarde. Será que não consigo enfrentar meus problemas sozinha? Eu queria amanhecer nos seus braços, sei lá o que vão pensar. Agora que me vendi para comprar um sonho que não me interessa, que não me faz feliz, sou mesmo uma vadia. Ficou tão chato de repente! Eu não quero mais nada disso. Por que a vida é assim? Eu não caibo na minha pele, quero um jardim com flores que não me interessam, quero amanhecer com as mão cheias de frutas podres, quero uma árvore para olhar. Mas agora o que eu mais quero é que amanheça logo. Quero que o dia acabe, para eu poder levantar bem. Mas é uma tortura saber que até o final do dia vou estar sentindo tudo de novo. Ah, como eu odeio tudo isso!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Castelo

-Fui fazer um castelo de cartas e um vento, desses que fazem as folhas cair e as roupas balançarem no varal, derrubou tudo. E por mais que eu construisse tudo de novo, acabava vendo tudo desmoronar.
Aquele vento, Lola, era minha consciência.

Xícara

Eu vi uma faca hoje e pensei em cortar a pele.
Só um pouquinho.
Para ver o café escorrendo das minhas veias. Mas fiquei com medo de furar demais, romper alguma coisa importante e nunca mais poder segurar uma xícara.