sexta-feira, 28 de junho de 2013

Aqueles dias

Aqueles dias que eu sorria até pros panfleteiros e distribuía elogios por aí.
Teve gente que não acreditava que eu pudesse mudar tanto, mas a gente sempre dá um jeitinho de ir mais a fundo e revirar no fundo da alma pra ver o que descobre de bom.
E com todas aquelas amizades fofas e sorrisos e dias de sol eu passava a vida olhando tudo, crendo em tudo e sentindo tudo. Tem sempre aquilo, aquele, aquela que você volta a encontrar e te dá um aperto no peito. Eu queria aperto na cintura. Aperto de mão.
A vida pode ser bonita se a gente pinta tudo de azul e pára de assistir jornal.
Virgens Suicidas, Quando duas mulheres pecam, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, Réquiem para um sonho...
Vamos deixar o sofrimento pra ficção das tardes.
A minha gatinha gorda e preguiçosa, eu mais gordinha e preguiçosa e rindo. O bolo queimando e eu nem aí.
Entender que a gente anda conforme o passo. Deixar os conflitos pra trás.
Deixar as velhas pessoas pra trás. Acreditar em Deus.

A vida só é boa quando a gente ignora o que tem de ruim.
Mas a questão é que isso não pode durar pra sempre.

sábado, 9 de março de 2013

Hoje

Hoje as estrelas sorriram pra mim quando eu fechei os olhos e pedi lá do fundo, bem do fundo.
Da minha janela eu vejo tijolos e chão grosso. Eu vejo crianças barrigudas e mulheres gordas.
Essa tarde um quê de esperança entrou debaixo da minha porta. E eu pulei e pulei de medo.
Mas acho que no final tudo se ajeita e a gente deixa de perder tempo.
Aquela moça que trabalha na máquina de xerox sorriu pra mim hoje e me perguntou se eu tinha visto o céu e tão lindo que ele tava.
Na vida a gente sempre tem moças do xerox pra lembrar que o céu tá bonito
e sempre tem uma janela pra ver o chão grosso e a criança barriguda.

quinta-feira, 7 de março de 2013

poderia

Você poderia falar da guerra. 
Poderia falar das mães que perderam os filhos.
Poderia falar da Yoni Sanchez, do Hugo Chavez, do Chorão.
Do facebook, da morte súbita, dos coliformes fecais na água de poço.
Do governo brasileiro, do governo americano.
De Goethe, de Pessoa, dos Anjos.
Do cachorro que queria chegar do outro da rua,
da tangente transversal entre duas retas paralelas num mesmo plano,
da escassez de amor, de ódio.
Dos rompimentos, dos dias banais, das cruzadas.
Do tempo, das provas, dos amores.
Da padaria da esquina que não tem iogurte,
de gente que bebe cachaça, de gente que usa crack.
Das pessoas que você ama, das que você odeia,
das que você não sabe que existem.
Mas você só sabe falar de você mesmo. 
Porque acha que a sua dor é a maior dor 
do mundo. 

Mas não é.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tem dias que a vida é um ato de coragem...


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Se você quer raspar a cabeça...

 você tem que saber se olhar no espelho e não se arrepender. Se você quer raspar a cabeça, você tem que desfazer as unhas e usar uma roupa condizente que não condiga. Mesmo sem saber se essa palavra, condiga, existe. Você tem que entender que raspar a cabeça é definitivo e que seu cabelo nunca mais será o mesmo, nem os olhares serão os mesmos. Se você quer raspar a cabeça você tem que saber gritar alto e pular alto e fazer tudo do alto pra não se envergonhar de nada que possa te causar desconforto. 
Se você quer raspar a cabeça você tem que se livrar de todas as acusações de ingratidão, de incesto, de sem-vergonhice. Mesmo sem saber se vergonhice é com C. Se você quer raspar a cabeça você tem que entender que não tem como se preocupar com ortografia ou telefone ou qualquer outra coisa. Se você quer raspar a cabeça você tem que entender que você vai ser outra com a mesma face, mas sem cabelo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

só que não

Eu planejei tudo. Construí na cabeça, montei e desmontei várias vezes vários planos. Mas não deu certo. E agora é a hora que eu choro e faço birra e finjo que tenho o maior umbigo do mundo. Só que hoje não. Hoje eu sou adulta. E gente adulta não chora. Nem foge das responsabilidades. Gente adulta finge que está bem e que não importa o que aconteça ano que vem tem de novo.
Por mais que você queira morrer. E gritar. E colocar a culpa nos outros. Hoje eu vou ser adulta pela primeira vez. Eu vou respirar fundo quando der vontade de chorar. Eu vou segurar os comentários maldosos. Eu fracassei e não deu. Mas não dar faz parte. E se eu fracassei eu tenho que me esforçar mais. E pronto. E tá tudo bem. Mesmo que não esteja.
Foda-se.

sábado, 11 de agosto de 2012

Que os Anjos falem por mim

Apóstrofe à carne                

Augusto do Anjos

"Quando eu pego nas carnes do meu rosto
Pressinto o fim da orgânica batalha:
- Olhos que o húmus necrófago estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...

E o Homem - negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha.
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!

Carne, feixe de mônadas bastardas.
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos.

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!"